Um seguro de dez milhões para distribuir migalhas de conforto
Numa reviravolta que só a burocracia governamental pode considerar lógica, a Ferrovia do Istmo de Tehuantepec (FIT), aquela joia operada pela Secretaria da Marinha – porque nada grita “conhecimento ferroviário” como os marinheiros –, teve a visão de gastar quase 10 milhões de pesos em seguros de passageiros. Tudo isso, é claro, antes de que seu novo Trem Interoceânico decidisse fazer uma excursão não autorizada fora dos trilhos, deixando 13 mortos e 98 feridos. Que eficiência, certo? Primeiro o seguro, depois o desastre. Quase parece planejado.
A calculadora da dor: valorizando vidas e fins em UMAs
Agora, vamos entrar nos detalhes fascinantes do contrato FIT-GARMOP-ADQ-5-25, um nome tão caloroso e humano quanto o processo que descreve. Acontece que a vida de um passageiro, caso ele tenha o azar de perdê-la em um acidente ferroviário, tem um limite máximo de indenização estabelecido em 3.414.259 Unidades de Medida e Atualização. Tradução: quase 400 mil pesos. Uma verdadeira fortuna, talvez suficiente para comprar alguns carros usados ou dar uma modesta entrada em um apartamento. Um verdadeiro alívio para a dor, sem dúvida.
A apólice, com uma generosidade de tirar o fôlego, cobre também invalidez permanente total (em caso de perda de membros, detalhe), despesas de funeral (para que não seja um fardo extra) e até assistência médica. É claro que a morte deve ocorrer dentro de 90 dias após o acidente, porque aparentemente o espírito da Lei Federal do Trabalho que rege isso é “use ou perca”. E sua bagagem? Cada mala despachada tem um valor máximo de 50 UMA, cerca de 5.657 pesos. Esperemos que ninguém carregue uma herança de família na mala, porque a compensação mal daria para um fim de semana num hotel económico.
Papelada: o último obstáculo no caminho para a compensação
Mas não pense que distribuir essas quantias seja algo simples. É para isso que serve a burocracia! As vítimas ou seus familiares beneficiários devem apresentar, em meio ao trauma e à confusão, uma série de documentos dignos de um pedido de empréstimo hipotecário. Eles precisarão de identificação oficial, RFC, CURP, comprovante de endereço e, a joia da coroa: o bilhete de embarque original. Sim, aquele pequeno pedaço de papel que, no caos de um descarrilamento massivo, é a primeira coisa que todos pensam em guardar num lugar seguro. Porque nada diz “assistência imediata” como exigir uma passagem de alguém que acabou de escapar de um vagão de trem capotado. A Lei das Instituições de Seguros e Finanças assim o exige e quem somos nós para questionar a sua sensibilidade em tempos de crise.
Em resumo, temos uma obra faraônica do governo, um acidente ferroviário de grandes proporções, uma apólice de seguro milionária e uma indenização que, quando ponderada, parece mais uma simulação para reparar o dano do que uma compensação real. É o clássico “muito barulho por nada”, mas aplicado à tragédia humana. A empresa gasta uma fortuna para se proteger, enquanto o valor atribuído à vida e à integridade das pessoas parece calculado com a mesma frieza com que se orçamenta a pintura de vagões.
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