A ‘atualização’ legal que ninguém pediu, mas que alguns já gostam
Fiquem à vontade, nossa Câmara dos Deputados acaba de nos dar uma masterclass sobre como amenizar as consequências para quem deveria aplicar a lei. Num movimento que deixou mais de um carrancudo, o plenário aprovou por esmagadora maioria – 339 votos a favor, para ser exato – a modificação da Lei Contra a Extorsão para, atenção, reduzir a pena de funcionários públicos que, sabendo de um crime de extorsão, decidem fechar os olhos. Basicamente, é como se, em vez de expulsá-lo por colar em uma prova, o professor baixasse um pouco sua nota. A ata desta joia legislativa já foi enviada ao Senado da República para seu próximo procedimento, porque coisas boas são compartilhadas.
A versão original da lei, que parece ter sido demasiado dura para alguns, estabelecia uma pena de 10 a 20 anos de prisão. Com esta nova e melhorada patch, a pena para funcionários públicos com poderes para investigar e processar este crime (e que misteriosamente não o fazem) é reduzida para uma faixa mais amigável de cinco a 12 anos. Uma pechincha, se você pensar bem.
O debate na plataforma: Justiça proporcional ou tráfico de influências
O autor intelectual desta reserva foi ninguém menos que o deputado Ricardo Monreal, coordenador do Morena. Seu argumento, que apresentou com a seriedade de um unboxing de produto milagroso, foi que se trata de um “ajuste” para que as penalidades sejam proporcionais. Em suas próprias palavras: “Porque não pode ser aplicada pena maior, de 10 a 20 anos, ao funcionário que não informa, em comparação com aquele que é extorsionista”. Ou seja, segundo esta lógica, quem não impede o crime é quase menos culpado do que quem o comete. Tome nota.
Mas, como em todo bom drama, houve oposição. Os deputados do PAN não acreditaram na história e acusaram Morena de ter um patrocinador oculto para esta reforma: beneficiar o ex-secretário de Segurança Pública de Tabasco, Hernán Bermúdez, ligado a um caso de extorsão durante a gestão do senador Adán Augusto López. O deputado David Azuara divulgou sem anestesia na plataforma: “Esta é uma reforma política que tem nome, tem sobrenome… para Hernán Bermúdez, não é?”. Um roteiro que nem sequer é a melhor série de corrupção no streaming.
Enquanto isso, a maioria do Morena e seus aliados, exibindo seu poder de voto, endossaram a redução. Para coroar a turbulência legislativa, o vice-coordenador do PAN, Héctor Saúl Téllez, denunciou que esta mesma lei, aprovada por unanimidade na generalidade, também inclui artigos que censuram meios de comunicação e jornalistas. Porque o que seria de uma reforma controversa sem um pouco de censura como presente?
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