A caixa preta: a testemunha silenciosa (e presumivelmente muito reveladora) do desastre
Em uma reviravolta que ninguém esperava (bem, talvez fãs de séries policiais), a presidente Claudia Sheinbaum Pardo anunciou que o Trem Interoceânico acidentado tinha sua própria caixa preta. Sim, como aviões. Porque, aparentemente, quando se trata de um descarrilamento espetacular, a modernidade exige que o façamos com todos os dispositivos de gravação possíveis. O presidente federal, num tom que mistura a solenidade de uma declaração oficial com a esperança de que um aparato tecnológico resolva a bagunça, indicou que essa fofoca ferroviária já está nas mãos de ninguém menos que a Procuradoria-Geral da República. Lá, uma equipe de especialistas deve decifrar se o culpado foi a locomotiva, os trilhos, o maquinista ou uma infeliz conjunção astral.
“Absolutamente tudo tem que ser bem analisado, tem que ser revisto e tudo tem que ser esclarecido”, declarou Sheinbaum, estabelecendo uma lista de prioridades tão óbvias que quase dói. A premissa, claro, é impecável: se há responsáveis, que a justiça atue. Uma ideia tão revolucionária que quase parece nova. Entretanto, no Palácio Nacional, o lema é garantir que o comboio funciona “corretamente” e que as infraestruturas estão em “bom estado”. Um objetivo louvável, com certeza, embora não possamos deixar de nos perguntar se não deveria ter sido a principal prioridade *antes* de treze pessoas perderem a vida.
O operador são e salvo e o eterno “temos que esperar”
Num detalhe que acrescenta mais camadas de mistério a este emaranhado, o Presidente informou que o operador do comboio não ficou ferido. Boa sorte para você, considerando o número de mortes. Agora, enquanto as famílias choram, a instrução oficial é “devemos esperar”. Primeiro atenda à emergência (algo que, presume-se, já foi feito), e *depois*… surpresa! Podem ser fornecidas informações sobre o estado das estradas. Uma revisão “completa” da linha Z e das demais está na lista de tarefas, logo depois de descobrirmos o que diabos aconteceu. Porque, no fascinante mundo da logística governamental, não se pode inspecionar algo até saber por que falhou. Ou sim?
Diante dos testemunhos e vídeos que correm soltos nas redes sociais, a posição oficial é de paciência budista. Sheinbaum ressalta que será a feliz caixa preta, e não o tribunal do TikTok, que definirá se houve excesso de velocidade ou qual outro fator desencadeou a tragédia. “Vamos deixar o Ministério Público fazer o seu trabalho”, disse ele. Uma nobre demonstração de fé nas instituições, que esperamos que venha acompanhada de resultados mais rápidos que os de uma novela. Enquanto isso, a Agência Reguladora do Transporte Ferroviário terá a chance de brilhar ao analisar os dados. O país aguarda, com cepticismo e algum sarcasmo, as conclusões desta investigação que promete ser tão exaustiva quanto lenta.
O fim desta história? Ainda está para ser escrito. Mas se a tecnologia e a burocracia conseguirem encontrar um terreno comum, talvez possamos evitar que a próxima “caixa negra” que analisam seja outro desastre anunciado. A segurança no transporte de passageiros, um conceito tão antigo quanto a própria ferrovia, parece agora depender de um pequeno dispositivo e da vontade política de ouvir o que ele tem a dizer.
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