Operação de segurança prende grupo ligado à polêmica igreja
Uma importante operação de segurança coordenada no estado de Michoacán resultou na prisão de 38 pessoas, entre as quais um cidadão norte-americano, supostamente identificado como membro da conhecida igreja La Luz del Mundo. Durante o procedimento, as autoridades conseguiram apreender um arsenal composto por mais de uma dezena de réplicas de armas de fogo, facas e equipamentos táticos diversos, segundo a Secretaria de Segurança Pública do estado.
Os fatos: denúncia e invasão em Vista Hermosa
As prisões foram realizadas em uma propriedade localizada no município de Vista Hermosa, área próxima à fronteira com o estado de Jalisco. A ação foi iniciada após o recebimento de uma denúncia de cidadão alertando sobre a presença de civis armados na área. Ao chegar ao local, as forças de segurança corroboraram a presença do grupo e procederam à intervenção.
Uma informação crucial fornecida por uma fonte oficial anônima à Associated Press indicou que, no momento da prisão, os homens se identificaram como membros do La Luz del Mundo. Esta igreja cristã, cuja história remonta a 1926, quando foi fundada precisamente em Jalisco, afirma ter cerca de 5 milhões de seguidores distribuídos em mais de 50 nações.
Antecedentes: as graves acusações contra o líder espiritual
Este evento ocorre num contexto de alta tensão para a organização religiosa. Há apenas duas semanas, o seu líder máximo, Naasón Joaquín García, foi formalmente acusado, juntamente com a sua mãe, de cometer abusos sexuais contra gerações de jovens seguidores. Perante um tribunal federal em Nova Iorque, o líder religioso, a quem os seus fiéis consideram o “apóstolo de Jesus Cristo”, declarou-se inocente das acusações.
No entanto, esta não é a primeira vez que Joaquín García enfrenta a justiça. Num acontecimento que chocou a opinião pública, o líder foi condenado em 2022 por um tribunal de Los Angeles, nos Estados Unidos, a uma pena de 16 anos de prisão após se declarar culpado de abusar sexualmente de três menores. A justiça californiana sentenciou assim um dos capítulos mais sombrios da instituição.
A operação em Vista Hermosa contou com a participação conjunta de elementos do Exército Mexicano, da Guarda Nacional, bem como da polícia estadual e de agentes da Procuradoria-Geral do Estado. Durante a inspeção minuciosa do local, as forças de segurança confirmaram que os 38 indivíduos estavam “realizando treinamento tático operacional”. O arsenal apreendido incluía uma arma funcional, 19 réplicas de armas de fogo, facas, canivetes e equipamentos táticos e de comunicação especializados, além de um veículo.
As autoridades abstiveram-se de revelar a identidade completa dos detidos, limitando-se a confirmar a presença de um cidadão norte-americano no grupo. As acusações específicas pelas quais foram presos serão anunciadas nas próximas horas, à medida que a investigação ministerial avança.
Acusações formais e padrão de conduta
A situação jurídica de Naasón Joaquín García torna-se ainda mais complicada. O líder religioso, originário de Los Angeles, enfrenta agora acusações de ter usado a sua posição de poder dentro de A Luz do Mundo para abusar sexualmente de numerosas mulheres, incluindo raparigas. A acusação apresentada em Nova Iorque descreve detalhadamente os alegados ataques sofridos por 13 vítimas do sexo feminino, que eram menores na altura dos acontecimentos, algumas com apenas 13 anos de idade.
O documento judicial, de forma alarmante, sugere a existência de um padrão de comportamento criminoso que transcenderia a figura atual do líder. As investigações indicam que o pai e o avô de Joaquín García, ambos falecidos e que também lideraram a igreja, teriam realizado ações semelhantes, o que levanta sérias questões sobre a estrutura e as práticas dentro da organização há décadas.
A igreja, que tem sua sede em Guadalajara, capital de Jalisco, mantém uma presença significativa nos Estados Unidos, com congregações em estados como Califórnia, Nova York, Nevada, Texas, Geórgia, Indiana, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Nova Jersey e Washington, D.C., de acordo com os documentos de acusação.
Controle interno e links com energia
Um aspecto perturbador revelado pelos promotores dos EUA é o sistema de controle que supostamente era exercido dentro da congregação. Num documento apresentado para argumentar contra a libertação sob fiança da mãe do líder, é detalhado que os membros da igreja foram avisados de que seriam punidos e condenados eternamente se duvidassem do apóstolo, desobedecessem aos seus ensinamentos ou o desafiassem de qualquer forma. Esta dinâmica, segundo as autoridades, facilitaria a impunidade para alegados crimes.
Por sua vez, a defesa do líder rejeitou vigorosamente as acusações. O advogado de defesa Alan Jackson descreveu a nova acusação como o resultado de “uma campanha imprudente de exagero do governo”, insinuando que há perseguição contra o seu cliente.
A influência de La Luz del Mundo parece estender-se além do religioso. Segundo relatos da organização local Defensorxs, pelo menos duas mulheres que foram eleitas em meados deste ano como juízas no estado de Jalisco foram publicamente ligadas à igreja, o que levanta questões sobre as suas possíveis ligações com esferas do poder público.
Este caso continua a evoluir e espera-se que nos próximos dias sejam realizadas as audiências correspondentes para definir a situação jurídica tanto dos 38 detidos em Michoacán como do próprio Naasón Joaquín García nos Estados Unidos, num processo judicial que está a ser acompanhado de perto a nível internacional.
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