Uma funerária no meio da tempestade
As autoridades mexicanas prenderam os proprietários de uma funerária com crematório em Iguala. A mesma cidade onde, há onze anos, desapareceram 43 alunos da Escola Normal Rural de Ayotzinapa. A presidente Claudia Sheinbaum anunciou nesta segunda-feira, vinculando a ação a novas linhas de investigação do caso.
Mas, como sempre neste labirinto, os detalhes são escassos. Sheinbaum não disse quantas prisões houve, ou as acusações, ou o que exatamente encontraram. Ele apenas mencionou que o local “funcionava de forma muito irregular”.
O que há dentro dessas sacolas?
Clemente Rodríguez, pai de um dos jovens desaparecidos, disse à AP que uma comissão de familiares visitou o local na sexta-feira. Lá, as autoridades mostraram-lhes vários sacos com o que se acreditava serem restos humanos. Disseram-lhes que um era de 2014.
“Poderia ser verdade? Poderia não ser verdade?” Rodríguez se perguntou com ceticismo compreensível.
Uma fonte anônima presente na visita acrescentou uma informação crucial: as prisões não estão diretamente ligadas ao crime de desaparecimento. Então por quê? O Ministério Público Federal não deu explicações.
Esta funerária não é nova no radar. Já havia surgido em depoimentos de testemunhas protegidas que alguns estudantes foram levados para lá. Mas o grupo internacional de especialistas que investigou o caso não conseguiu corroborar estas versões antes de deixar o país em 2023, denunciando a falta de colaboração oficial.
Onze anos depois, o México ainda não conhece o destino final dos jovens. Apenas restos de três foram identificados. O caso é atormentado por irregularidades e manipulações desde o início.
As autoridades classificam-no como crime de Estado, com a longa sombra do cartel local e conluio com forças policiais e militares. Estes últimos continuam a não entregar documentos importantes, apesar de uma ordem judicial recente.
Sheinbaum promete uma “investigação muito aprofundada”. As famílias esperam. E um país inteiro volta a olhar para Iguala, perguntando-se se desta vez será diferente ou apenas mais um capítulo nesta tragédia sem fim.




