A paralisação governamental como instrumento do poder presidencial
WASHINGTON — A paralisação administrativa federal, que já constitui o segundo episódio mais longo da história americana sem sinais de resolução imediata, tornou-se um mecanismo através do qual o Presidente Donald Trump exerce um controlo sem precedentes sobre o aparelho governamental. Esta situação representa uma evolução significativa na natureza dos encerramentos orçamentais, passando da sua concepção original como uma medida de aplicação da lei federal para a sua configuração actual como uma ferramenta de pressão política.
O fenómeno contemporâneo de suspensões de serviços governamentais teve origem em 1980 através de uma série de pareceres jurídicos emitidos pelo então Procurador-Geral Benjamin Civiletti, que serviu durante a administração do Presidente Democrata Jimmy Carter. Civiletti baseou sua interpretação na Lei Antideficiência de 1870, argumentando que esta regulamentação era “clara e inequívoca” ao restringir os gastos públicos uma vez expirada a autorização do Congresso.
Reconfiguração estratégica da paralisação governamental
No contexto actual, o presidente republicano explorou a falta de financiamento para sancionar a oposição democrata, iniciou procedimentos de despedimento de milhares de funcionários federais e aproveitou o vazio do poder legislativo para reorientar o orçamento federal de acordo com as suas prioridades políticas. “Não posso acreditar que os democratas de esquerda radical me deram esta oportunidade sem precedentes”, declarou Trump na sua plataforma de redes sociais no início da paralisação.
A resposta Democrata tem sido caracterizada por uma firmeza inabalável nas suas posições negociais. Esta rigidez bilateral complicou exponencialmente a resolução do conflito e irá potencialmente redefinir a abordagem de Washington às rupções orçamentais como um todo.
Evolução histórica dos mecanismos de fechamento
Durante o período que se seguiu ao escândalo Watergate, o mandato de Civiletti no Departamento de Justiça foi distinguido pelos seus esforços para restaurar a confiança do público nas instituições, muitas vezes através de interpretações rigorosas da legislação federal. Quando um desacordo entre o Congresso e a Comissão Federal de Comércio criou um atraso na aprovação de fundos para a agência, Civiletti emitiu o seu parecer jurídico, seguido mais tarde por outro permitindo ao governo manter serviços essenciais. O oficial não sabia então que estava lançando as bases para futuras batalhas políticas decisivas.
“Nunca poderia imaginar que estes encerramentos durariam tanto tempo e que seriam usados como uma táctica política”, admitiu ao Washington Post há seis anos. Civiletti faleceu em 2022.
Nos quinze anos seguintes, não houve suspensões governamentais prolongadas. Em 1994, os republicanos recuperaram o controlo do Congresso liderados pelo presidente da Câmara, Newt Gingrich, prometendo reformar Washington. Seus confrontos mais significativos com o presidente democrata Bill Clinton giraram em torno das paralisações do governo.
A maioria dos analistas históricos concorda que estas suspensões foram contraproducentes, e Clinton ganhou a reeleição parcialmente ao demonstrar a sua firmeza contra Gingrich. “Os republicanos da era Gingrich obtiveram algumas vitórias políticas limitadas, mas no geral isso representa um fracasso estratégico”, disse Mike Davis, professor associado de história no Lees-McRae College.
Outra paralisação significativa ocorreu em 2013, quando os republicanos do Tea Party confrontaram o presidente democrata Barack Obama. No entanto, foi só no primeiro mandato de Trump que os democratas adotaram a tática de suspensões governamentais prolongadas como ferramenta de negociação.
Transformação na aplicação de fechamentos
Durante anteriores perturbações orçamentais, as administrações presidenciais aplicaram consistentemente regulamentos que regem os encerramentos nas agências afetadas. “Supõe-se que uma paralisação suspenda as mesmas atividades sob Reagan e sob Clinton”, explicou Charles Tiefer, antigo conselheiro geral interino da Câmara dos Representantes e professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de Baltimore. O académico afirmou que, na actual paralisação, a administração Trump implementou “uma espécie de poder de apropriação presidencial descontrolado, que contradiz todo o sistema, a Constituição original e a Lei Anti-Deficiência”.
A administração incorporou uma abordagem abertamente política na corrida ao financiamento, evidenciada quando várias agências atualizaram os seus portais para incluir declarações atribuindo a responsabilidade pelo encerramento aos Democratas. O Departamento de Defesa utilizou fundos de pesquisa e desenvolvimento para compensar o pessoal militar em serviço ativo. Simultaneamente, Trump tentou iniciar demissões para mais de 4.000 funcionários federais que trabalham predominantemente em áreas consideradas prioritárias para a agenda democrata.
Esta semana, durante um almoço na Casa Branca com senadores republicanos, Trump apresentou seu diretor de orçamento, Russ Vought, como “Darth Vader” e se gabou de como está “cortando prioridades democratas que eles nunca mais recuperarão”.
Consequências e perspectivas de resolução
Os democratas reforçaram a sua estratégia e votaram repetidamente contra o projeto de lei apoiado pelos republicanos para retomar as operações do governo. Eles argumentam que os eleitores acabarão por responsabilizar os republicanos pelas consequências da paralisação, dado que o seu partido detém o poder em Washington.
Os democratas estão confiantes de que selecionaram uma demanda política vencedora com os planos de saúde oferecidos nos mercados do Affordable Care Act, mas, o que é mais importante, eles também estão travando uma batalha para conter a expansão do poder presidencial de Trump.
O senador democrata da Virgínia, Tim Kaine, reconheceu que seu estado possivelmente tem mais a perder do que qualquer outro devido à alta concentração de funcionários federais e atividades baseadas no território. Mas ele argumentou que seus eleitores estão exaustos com o “desfile interminável de punições” de Trump, que incluiu demissões, retirada de financiamento de projetos de desenvolvimento econômico, campanhas de lobby contra universidades e a demissão do procurador da Virgínia nos EUA.
“Isso faz as pessoas reagirem”, disse Kaine.
A determinação democrática enfrentará o seu teste final na próxima semana. Os funcionários federais, inclusive os próprios parlamentares, já completaram quase um mês inteiro sem receber seus salários integrais. O Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP), que beneficia aproximadamente um em cada oito americanos na compra de alimentos, enfrenta um precipício de financiamento em 1º de novembro.




