Um decreto com sabor de justiça (e veremos)
Em um ato que sem dúvida deixou mais de um espectador se perguntando se eles teriam caído em um portal do tempo para os primeiros meses de qualquer mandato de seis anos, a presidente Claudia Sheinbaum estrelou a entrega de algo que, em uma reviravolta digna de uma novela, sempre pertenceu aos Ódami. Sim, estamos falando de mais de 3 mil hectares da bela e conflituosa Serra Tarahumara. A este gesto, que alguns chamam de restituição e outros poderiam chamar de “devolução do que foi emprestado depois de alguns séculos”, a atual administração acrescenta o número astronómico de 6.026 hectares devolvidos aos seus proprietários originais. Tudo isso, claro, sob o guarda-chuva conceitual do “Segundo Andar da Quarta Transformação”, um nome tão grandioso que quase é preciso um elevador para entendê-lo.
O presidente, posando diante da paisagem montanhosa, lançou a pérola retórica do dia: “Trata-se de dar a você o que sempre foi seu, mas não foi reconhecido”. Uma frase que, se analisada cinicamente, é a definição perfeita de uma injustiça histórica corrigida com muito alarde. Mas ei, quem somos nós para negar um momento fotogênico de justiça? Eles chamam isso de “justiça territorial“, parte de um “Plano de Justiça para o povo da Serra Tarahumara” que soa tão bem em um discurso que quase dá vontade de empacotá-lo e vendê-lo.
Promessas, buracos e enfermagem bilíngue
E como não poderia deixar de ser neste tipo de ato oficial, a entrega do terreno foi acompanhada de um menu degustação de promessas governamentais. O destaque: incorporar as pessoas ao programa Sembrando Vida, aquela iniciativa que ou salva a sua economia rural ou se perde na imensidão burocrática, dependendo para quem você perguntar. Mas a festa dos compromissos não termina aí. Também foi prometido, numa coligação quase épica entre a federação e o estado, atacar o inimigo público número um dos automobilistas: os buracos. Porque nada diz “justiça ancestral” como uma estrada sem buracos.
O combo de promessas incluía ampliar centros de saúde, garantir medicamentos (algo que, sejamos sinceros, em qualquer hospital do país parece ficção científica) e a joia da coroa: construir uma Escola de Enfermagem ao lado do Hospital Guachochi. A idéia, maravilhosa se houver, é treinar pessoal médico que fale a língua nativa. Imagine: ser capaz de explicar os seus sintomas na sua língua nativa enquanto eles cuidam de você. Um luxo que, ironicamente, deveria ser a norma e não a manchete.
Depois de ouvir os habitantes, Sheinbaum, no modo de super-herói de infraestrutura, comprometeu-se com mais: estradas decentes, eletrificação, conectividade (o 5G chegará antes da água potável?) e novas escolas. Tudo para o próximo ano, com direito a devolução e fiscalização. Em outras palavras, coloquem o alarme em suas agendas, porque o presidente está de volta em turnê.
Para encerrar com chave de ouro, Antonio Ayala Loera, representante da Ódami, agradeceu o anúncio da escola de enfermagem, que promoverá o IMSS. Um momento genuíno e necessário no meio dos holofotes políticos. Porque no final das contas, entre o sarcasmo e a ironia, permanece uma verdade incômoda: essas comunidades esperaram séculos por um reconhecimento que vai além de um pedaço de papel e uma foto. Espero que enfermeiras bilíngues e estradas sem buracos cheguem antes que o próximo “andar” da próxima “transformação” prometa a mesma coisa novamente.
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