A mina que se recusa a abandonar suas vítimas
Porque nada representa “avanço tecnológico” como continuar a remover corpos de um acidente que ocorreu quando o Twitter era criança e o Facebook ainda não havia arruinado as eleições. A Secretaria do Trabalho e Previdência Social (STPS) anunciou com o entusiasmo de quem descobre um fóssil pré-histórico que identificaram outro mineiro em Pasta de Conchos. Parabéns! Existem apenas… mais seis para citar. Alguém acompanha ou devemos colocar em um guardanapo?
O resgate mais lento da história
Ignacio Campos Rosales é o último a ingressar neste macabro clube de membros permanentes (21 até agora), enquanto seus colegas continuam fazendo fila para sair da mina que os engoliu em 2006. Sim, no mesmo ano em que Shakira sacudiu os quadris do planeta inteiro com Hips Don’t Lie. Quantos governos passaram desde então? Três, mas quem está contando.
O STPS, num comunicado que cheira a manual de relações públicas, presume que 15 famílias já sabem onde estão os seus mortos (que alívio) e que entregaram 13 cadáveres com toda a dignidade que permite um processo mais lento que o crescimento de um cacto no deserto. Protocolo? Logística? Não, senhores, isto é o México: onde até os mortos têm de esperar a sua vez.
Caso alguém tenha esquecido (e claro, com tanto escândalo político envolvido), em 19 de fevereiro de 2006 uma explosão transformou a Pasta de Conchos em uma sepultura coletiva para 65 mineiros. Apenas dois corpos foram resgatados naquele momento, pois por que pressa se a negligência já havia feito o seu trabalho? Agora, com a elegância de um procedimento burocrático, as autoridades batem no peito enquanto as famílias continuam a questionar-se se alguma vez terão um enterro digno… ou pelo menos uma certidão de óbito antes dos seus netos completarem 50 anos.
Moral? Neste país, até a morte vem em parcelas. E sem juros.
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