O restaurante Lakou Lakay – “casa” em crioulo haitiano – fica a poucos quarteirões do muro da fronteira em Tijuana. Sua proprietária, Vivianne Petit Frere, fugiu do Haiti em 2019 com o sonho de chegar à Flórida. Hoje ele tem um negócio próspero, é fluente em espanhol e estuda serviço social. Mas a mudança mais profunda: sua neta Alexca, nascida no México, é automaticamente cidadã mexicana.
Quem obtém a cidadania por nascimento?
O Presidente Donald Trump assegura que os Estados Unidos são o único país que o concede, enquanto a sua ordem executiva – assinada em 20 de janeiro de 2025 – procura negar esse direito aos filhos de pais sem estatuto legal. A Suprema Corte dos EUA analisa sua constitucionalidade. Contudo, pelo menos três dezenas de nações, especialmente nas Américas, garantem a cidadania automática aos nascidos no seu território: Canadá, Brasil, Argentina, Venezuela, Honduras e México.
“Somos o único país do mundo ESTÚPIDO o suficiente para permitir a cidadania ‘de nascença’!” Trump escreveu no Truth Social em abril.
Na realidade, a prática tem raízes históricas europeias. “Você é cidadão desde que tenha nascido no domínio do rei”, explicou César Cuauhtémoc García Hernández, professor de direito da Universidade Estadual de Ohio.
Um abrigo para famílias haitianas
Dezenas de milhares de haitianos vivem no México. Em 2021, quando o fluxo migratório cresceu, pelo menos 10% das mulheres haitianas que chegaram estavam grávidas, segundo a Organização Internacional para as Migrações. A cidadania automática não beneficia apenas as crianças: permite aos pais obter residência permanente.
“Há muitas crianças em Tijuana que têm 6, 7, 8 anos e são mexicanas; os seus pais eram migrantes irregulares, mas agora são residentes permanentes”, disse Petit Frere.
Ela obteve residência antes do nascimento de Alexca. Agora ele está solicitando a cidadania para expandir seus negócios. Enquanto isso, sua neta cresce em um país que lhe abre portas: um passaporte mexicano facilita viagens internacionais. O Haiti, atormentado pela violência de gangues, deixou mais de 1 em cada 10 pessoas desabrigadas.
Mas a história não é universal. A República Dominicana eliminou a cidadania por nascença em 2007 e aplicou-a retroactivamente até 1929. Mais de uma década depois, cerca de 130 mil pessoas permaneciam apátridas, segundo o Centro de Estudos Migratórios de Nova Iorque.
“Os filhos dos imigrantes são os que mais se destacam neste mundo”, refletiu Petit Frere. “Limitar a cidadania por nascimento é como ciúme.”




