A ironia da justiça: uma acusação com gosto de déjà vu
Numa reviravolta que nem o mais cínico roteirista ousaria propor, a Procuradoria-Geral decidiu, com a urgência característica de um caracol sonolento, proceder criminalmente contra María Amparo Casar Pérez. Sim, o mesmo presidente dos Mexicanos contra a Corrupção e a Impunidade. A ironia, claro, é tão sutil quanto uma martelada. A acusação: o crime de uso ilícito de poderes e poderes. Não podemos deixar de nos perguntar, com um sorriso irônico, se na FGR há um departamento especializado em meta-ironias ou se o universo simplesmente tem um senso de humor extraordinariamente distorcido.
O famoso analista acadêmico e político tem um encontro imperdível na próxima terça-feira. Sua anfitriã: a juíza Diana Selene Medina Hernández, no aconchegante Centro de Justiça Criminal Federal do Reclusorio Oriente. O motivo do encontro: aprofundar os delicados detalhes da pensão vitalícia que recebe da Petróleos Mexicanos. Um benefício que, ao que parece, foi desencadeado pelo trágico suicídio de seu marido, Carlos Fernando Márquez Padilla. Porque nada une mais o destino de uma pessoa a uma empresa estatal do que uma tragédia pessoal, certo?
A máquina judicial é acionada… mais de um ano depois
O que motivou esta reclamação? A Procuradoria Especializada de Combate à Corrupção (cujo nome é tão longo que quase exige uma pensão por desgaste vocal) decidiu, após uma pausa contemplativa de mais de doze meses, que era hora de judicializar a investigação. Tudo isso, lembram-nos, porque a Pemex de Octavio Oropeza denunciou na época que Casar Pérez obteve ilegalmente aquela pensão post mortem. Porque, claramente, na Pemex a prioridade sempre foi a gestão escrupulosa das pensões e não, digamos, outras questões financeiras de maior escala.
Vamos entrar em detalhes interessantes. Desde janeiro de 2005, a Sra. Casar é beneficiária da tão esperada pensão vitalícia da Pemex. Contudo, em Março do ano passado, a petrolífera estatal, num acesso de zelosa auditoria, suspendeu o pagamento. O argumento deles: seria uma acusação indevida. A razão? Seu marido não morreu em acidente de trabalho, mas por suicídio. E aí vem o fato que coloca a cereja no topo do bolo do absurdo: o falecido Sr. Márquez Padilla colaborou exatamente 129 dias na Pemex. Nem 130, nem 128. Cento e vinte e nove dias gloriosos como coordenador executivo. Um período tão breve que quase se qualifica como um estágio intensivo, mas aparentemente suficiente para garantir uma pensão vitalícia. Será que na Pemex os dias rendem anos-luz como os de um buldogue?
Diante desta suspensão, que a estatal realizou com a delicadeza de bater a porta, Casar Pérez não ficou de braços cruzados. Ele processou um amparo. E, surpreendentemente, o tribunal decidiu que o pagamento da pensão não pode ser suspenso unilateralmente pelo empregador uma vez ativado o direito a esses benefícios. Uma vitória jurídica que, no entanto, agora serve de base para uma acusação criminal. É o equivalente legal de “Eu te dou com uma mão e te tiro com a outra”, mas com martelo e manto.
Em resumo, estamos diante de um espetáculo onde uma combatente anticorrupção é processada por um benefício vinculado a 129 dias de trabalho do marido na empresa mais opaca do país. A questão retórica é óbvia: será esta uma luta vigorosa contra a corrupção ou um elaborado exercício de ironia institucional? Na terça teremos um novo capítulo desta saga que mistura tragédia pessoal, dinheiro público e uma generosa dose de sarcasmo histórico.
Você está intrigado com esse jogo de espelhos entre a luta anticorrupção e as acusações judiciais?Compartilhe esta nota em suas redes sociais e ajude-nos a tornar viral a análise dos absurdos contemporâneos. Explore mais conteúdos relacionados para decifrar, com humor ácido, as complexidades do poder no México.




