Um mecanismo desmantelado diante de uma crise que não cede
Os números são um golpe. O México chega a mais um 8 de março com 6.440 feminicídios registrados entre 2019 e janeiro de 2026. Sinaloa, CDMX e o Estado do México lideram esta lista macabra. Entre as vítimas, 635 eram meninas ou adolescentes.
Mas os números contam apenas parte da história. A outra é o desmantelamento sistemático das ferramentas para enfrentar esta tragédia.
“Chegamos a este 8 de março num contexto alarmante. O acesso à justiça para as vítimas do sexo feminino continua a ser uma luta contra estruturas institucionais que reproduzem a desigualdade e a impunidade patriarcal”, afirma o Observatório Nacional Cidadão do Feminicídio (OCNF).
O Alerta de Género: da ferramenta à fachada
O Alerta sobre Violência de Género (AVGM), mecanismo que levou anos de luta para ser construído, hoje está enfraquecido, opaco e ineficiente. O governo federal assumiu seu monitoramento há um ano e a única coisa clara é o retrocesso.
Eles reformaram a lei e eliminaram a obrigação de os estados alertados apresentarem relatórios semestralmente. Agora os relatórios dependem de um sistema nacional que, na prática, tem se mostrado ineficiente e alheio às realidades locais.
“O que estamos vendo não é um fortalecimento do Estado contra a violência feminicida, mas um enfraquecimento dos mecanismos”, diz María de la Luz Estrada, diretora da OCNF.
E acrescenta: “Remover relatórios obrigatórios, centralizar decisões sem responsabilização e gerar alertas sem avaliações é uma mensagem clara de regressão.”
O cinismo institucional chega a tal ponto que em estados como Veracruz, Puebla ou Jalisco o grupo de trabalho Alerta não foi convocado durante todo o ano de 2025. Em outros, como o Estado do México ou Sonora, quase não se reuniu uma única vez.
Dinheiro sem transparência, alertas gerados sem motivo
A destinação de mais de 856 milhões de pesos para um programa de prevenção à violência feminicida foi anunciada com grande alarde. Mas ninguém sabe como é distribuído ou como é exercido.
“Não basta destinar um orçamento se não sabemos como ele é exercido. A opacidade também é uma forma de violência institucional”, diz Estrada.
Enquanto isso, no Estado do México fala-se em retirar o Alerta em um município defendendo uma suposta redução de 50% nos feminicídios. Em Guerrero, eles estão considerando suspender o AVGM para atos ilícitos comparativos.
Gerar alertas sem mostrar progresso substancial é pura simulação. É apagar com o cotovelo o que foi escrito com a mão depois de anos exigindo essas ferramentas.
A dupla crise: assassinatos e desaparecimentos
Guadalupe Ramos, do CLadem, lembra que a violência tem outro lado igualmente brutal: 28.770 mulheres desaparecidas segundo registros do ano passado. Some-se a isso as 5.020 vítimas de homicídios até outubro de 2025.
O padrão se repete: investigações que não levam a feminicídios, ausência total de análise pericial social, zero identificação de padrões criminais. As redes criminosas crescem em todos os estados enquanto o Estado desarma as suas próprias defesas.
Estrada resume com precisão cirúrgica: há “a recusa sistemática em começar a investigar mortes violentas como os feminicídios”. Eles preferem chamá-los de ‘homicídios intencionais’ ou ‘brigas’. Tudo menos nomear o que são: crimes por ser mulher.
Chegamos assim a mais um Dia Internacional: com milhares de mortos, mecanismos desmontados e uma questão incómoda. Quantos mais relatórios precisam ser perdidos antes de reconhecermos que isso não é inépcia, mas sim política?




