Um legado histórico no centro da celebração literária
Numa cerimónia formal cheia de simbolismo, a Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL) realizou a mudança de transferência oficial que designa a República Italiana como o país convidado de honra para a sua edição de 2026. A cerimónia não só marcou uma transição administrativa, mas também um profundo reconhecimento da contribuição fundamental da Itália para a cultura do livro a nível global. Durante o evento, Filippo de la Rosa, ministro plenipotenciário e diretor central para a promoção da Cultura e da Língua Italiana, ofereceu uma reflexão que conecta o passado com o presente: destacou a figura de Aldo Manuzio, o humanista e impressor renascentista do século XV que revolucionou a indústria editorial ao padronizar o formato do livro portátil que conhecemos hoje. Esta intervenção estabeleceu um quadro conceptual claro: a participação italiana baseia-se no seu papel histórico como berço de inovações que perduram há séculos.
A programação cultural que a Itália apresentará na FIL 2026 será articulada sob o lema “O mundo fala-nos como um grande livro”. Este eixo temático servirá para estruturar uma análise multidimensional da sua contribuição, que irá além da exposição bibliográfica. A agenda comemorará três importantes marcos literários: o oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis, considerado o pai da literatura vernácula italiana; o centenário de nascimento do dramaturgo e ganhador do Prêmio Nobel Darío Fo; e o bicentenário de nascimento de Carlos Collodi, criador de “Pinóquio“, obra que detém o recorde de ser um dos textos mais traduzidos da história. Esta triangulação cronológica – abrangendo os séculos XIII, XX e XIX – demonstra uma estratégia curatorial destinada a mostrar a evolução e a diversidade do pensamento italiano.
Simbolismo e Diálogo na Troca de Objetos Culturais
O ritual de transição entre a cidade convidada anterior, Barcelona, e a nação italiana, foi marcado por uma troca de presentes de alto valor simbólico. A delegação catalã presenteou os seus sucessores com um azulejo de prata desenhado em 1904 pelo arquitecto Antoni Gaudí, figura central do modernismo cujo centenário de morte será comemorado no próximo ano. Este objeto não é uma lembrança decorativa, mas um fragmento material que representa um movimento artístico fundamental. Em reciprocidade, a delegação italiana entregou o volume “Maravilhosa Itália”, uma obra fotográfica que documenta os palácios e jardins do país, oferecendo assim uma porta de entrada visual ao seu património arquitectónico e paisagístico. Esta troca reforça a noção da FIL como uma plataforma de diálogo intercultural onde as identidades são comunicadas através de artefactos carregados de significado.
Em suas declarações, o Ministro Filippo de la Rosa elaborou uma tese sobre a natureza deste diálogo, caracterizando a Itália como “um país inovador, com grande história e em constante movimento“, e contrastando-a com a vitalidade e o “temperamento sísmico e criativo” do México. Esta formulação sugere um encontro entre duas tradições dinâmicas, capazes de uma “reconversão entre tradição e vanguarda”. Além disso, apresentou uma defesa epistemológica do livro como objeto: definiu-o como um resistente “companheiro de viagem” e como um “milagre da técnica humana” ao nível de invenções fundamentais como a roda. Esta análise eleva a discussão do meramente comemorativo para uma reflexão sobre a materialidade e permanência do meio literário na era digital.
A cerimónia contou com a presença das principais autoridades da FIL, incluindo José Trinidad Padilla López, presidente da organização, e Marisol Schulz, a sua diretora geral, o que sublinha a importância estratégica desta aliança para a instituição. A designação da Itália como convidada de honra para 2026 representa, portanto, um compromisso de aprofundar as raízes históricas da cultura impressa, ao mesmo tempo que se projecta para futuras colaborações intelectuais e criativas entre a Ibero-América e a Europa. A feira prepara-se assim para se tornar um espaço de investigação e divulgação sobre a influência italiana, fenómeno que transcende a literatura para abranger a arte, a ciência e o pensamento.
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