A realidade absurda que ultrapassa a ficção (e Hollywood a produz)
Porque nada diz mais “glamour” e “escapismo” do que um filme sobre uma menina de seis anos presa em um carro crivado de balas. Um elenco de produtores de alto nível, incluindo Brad Pitt, Joaquin Phoenix e o visionário Alfonso Cuarón, decidiram que o seu próximo projecto não será uma comédia romântica, mas sim a reconstrução de uma das tragédias mais chocantes que emergiram do conflito em Gaza. Claro, que melhor maneira de lidar com o trauma coletivo do que com uma estreia em Veneza, entre champanhe e tapetes vermelhos? A ironia é tão densa que você poderia cortá-la com uma faca.
O cineasta tunisiano Kaouther Ben Hania, que aparentemente tem uma afinidade por trazer histórias profundamente desconfortáveis para a meca do cinema, apresenta A Voz de Hind Rajab. O filme conta a história real de Hind, que em janeiro de 2024, enquanto fugia do fogo cruzado com sua família, ficou presa em um veículo convertido em armadilha mortal. A reviravolta mais macabra? A menina foi a única sobrevivente durante horas, mantendo uma comunicação desesperada com os serviços de emergência do Crescente Vermelho. Porque no século 21, até um pedido de ajuda pode se tornar viral, mas isso não garante que alguém virá salvá-lo.
Uma narrativa construída com balas e gritos
O filme se baseia nos registros de áudio reais da garota, um elemento tão cru que empalidece qualquer recurso ficcional. É necessário adicionar drama a uma situação em que a voz de uma criança implora pela sua vida enquanto ouve os gritos dos seus familiares falecidos? Aparentemente, Ben Hania acredita que sim, combinando o real com o recriado para, citando a sua declaração solene, “preservar a memória contra o ruído da informação efémera”. Uma causa nobre, sem dúvida, embora não possamos deixar de nos perguntar se o festival de premiações e a atenção da mídia são o antídoto perfeito para a amnésia coletiva ou simplesmente outra forma de capitalizar a dor.
O diretor declarou: “Não posso aceitar um mundo em que uma criança pede ajuda e ninguém vem.” Uma frase poderosa, devastadora e… óbvia? Claro, porque o verdadeiro desafio não é apontar o óbvio, mas sim evitar que acontecimentos como este aconteçam. Entretanto, o exército israelita negou ter tropas na área, uma afirmação que ruiu mais rapidamente do que um castelo de cartas quando investigações forenses independentes, como as da Forensic Architecture e da Al Jazeera, identificaram 335 buracos de bala no carro. Porque, é claro, esses buracos mágicos apareceram por conta própria.
O filme dá continuidade à linha de trabalho de Ben Hania, que já nos emocionou com Quatro Filhas e O Homem que Vendeu Sua Pele. Parece que ele encontrou um nicho: trazer as misérias humanas para o tapete vermelho. E com o apoio das estrelas de Hollywood, este projeto não só procura comover, mas também perturbar… especialmente aqueles que preferem que certas vozes, como a de Hind, permaneçam silenciadas.
Portanto, prepare-se para uma experiência cinematográfica que promete ser tão desconfortável quanto necessária. Ou, como diria uma pessoa sarcástica, a desculpa perfeita para as elites do cinema ficarem seletivamente indignadas antes de irem jantar em um restaurante cinco estrelas.
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