Um Adeus Expresso na Tribuna Máxima
Parece que na política mexicana a velocidade é um conceito relativo. Para algumas coisas, como reformas constitucionais, pode levar anos. Para outros, como demitir um Procurador-Geral da República, basta uma hora. Num espetáculo de eficiência que deixaria qualquer serviço de entrega em domicílio sem fôlego, Morena e seus comparsas no Senado aprovaram rapidamente a renúncia de Alejandro Gertz Manero. A justificativa? Uma misteriosa e poderosa “causa séria”: aceitar o cargo de embaixador em um “país amigo”. Porque, claro, trocar o Ministério Público por uma embaixada é uma emergência nacional que não pode esperar, algo tão grave como… bem, como ter de escolher entre tomar o café da manhã ou chegar atrasado a uma sessão plenária.
Com a agilidade de um procedimento notarial pago com urgência, o plenário legislativo, num piscar de olhos e com a dispensa de qualquer procedimento que pudesse retardar o desejo do governo, deu a sua aprovação. A operação contou com o apoio de 74 votos a favor da coalizão oficial (Morena, PT e PVEM). Diante deles, 22 votos corajosos – ou talvez simplesmente recalcitrantes – contra o PRI, o PAN e o MC tentaram, em vão, adicionar um pouco de drama a um espetáculo que já tinha o roteiro escrito.
Formal de despedida teatral
A presidente do Senado, Laura Itzel Castillo, foi responsável por dar-lhe o toque de solenidade que qualquer farsa bem encenada exige. Com a gravidade de quem anuncia a descoberta de uma nova partícula subatômica, leu os argumentos: o Senado, no uso de seus poderes, aceitou a renúncia considerando que o motivo era de gravidade insuspeitada. Quase se esperava que a “causa séria” fosse uma missão secreta para negociar a paz intergaláctica, mas não, era uma posição diplomática. A decepção é palpável.
Da tribuna, Clemente Castañeda, senador pelo MC, desempenhou o papel de desmancha-prazeres oficial ao argumentar seu voto contra. Ele ousou insinuar o que muitos pensavam: que ser nomeado embaixador não parece, nem um pouco, uma “causa grave” para deixar a Procuradoria-Geral da República. Que detalhe incômodo apontar a lógica em meio a tanta comemoração pela nova vaga. É como criticar a trilha sonora da estreia de um filme; Simplesmente não está feito.
Este episódio deixa no ar diversas questões retóricas que alimentarão as conversas políticas após o jantar. Será que a verdadeira “causa grave” foi a urgência de colocar um novo chefe no órgão judicial mais importante do país? Ou talvez a posição diplomática fosse tão irresistível que justificasse ignorar quaisquer formalidades? A dança das cadeiras na cúpula da FGR sempre foi um balé de alto desempenho, mas desta vez coreografado em uma velocidade vertiginosa. O que está claro é que, quando há vontade política, os obstáculos legais e processuais evaporam mais rapidamente do que a água no deserto. Um mestre de cerimônias sai, outro chegará, e o circo da política nacional continua, sempre oferecendo um novo ato para nosso espanto – e às vezes, nosso sarcasmo.
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