A outra guerra do CJNG: não só balas, também florestas e navios
A notícia da perda de Nemesio Oseguera Cervantes, ‘El Mencho’, encheu as manchetes. Mas enquanto conversavam sobre a operação em Tapalpa, Jalisco, uma máquina mais silenciosa continuou funcionando. Aquela que não só trafica drogas, mas que devasta economias locais e ecossistemas inteiros.
Pescadores presos entre a pobreza e o medo
Imagine sair para pescar sabendo que talvez não volte. É isso que milhares vivem na costa do Pacífico. O portal Mongabay documenta como o CJNG utiliza frotas pesqueiras para transportar narcóticos para o sul.
“Ninguém pode dizer nada, é a regra do silêncio imposta pela ‘praça'”, apontaram vários pescadores.
Um detalhe macabro: quando um pescador é preso, pelo menos sua família sabe que ele está vivo. “Muitos simplesmente desaparecem”, dizem eles. Um relatório da polícia salvadorenha de agosto de 2024 confirma isso: três pescadores artesanais de Jalisco detidos… em um barco carregado com arsenal militar.
O abacate que cresce em florestas fantasmas
Vamos do litoral às montanhas. Em Cuautla, Jalisco, os moradores já não se surpreendem ao ver caminhões chegarem escoltados por homens armados. Eles chegam com guindastes. Motores e gritos são ouvidos. E em alguns dias, uma floresta inteira desaparece.
Espigas, carvalhos, abetos… apagados. Tudo para plantar abacate. A febre chegou de Michoacán, onde grupos ilícitos controlam 70% da produção nacional. O padrão se repete: violência + desmatamento = pomares ilegais.
A rota tóxica do mercúrio
Aqui o cinismo atinge níveis estratosféricos. Segundo a Mongabay, mais de 200 toneladas de mercúrio foram traficadas do México para a Amazônia. O destino? Mineração ilegal no Peru, Bolívia e Colômbia.
A Agência de Investigação Ambiental (EIA) traçou o percurso: começa nas minas artesanais da Reserva da Biosfera da Serra Gorda, em Querétaro. Sim, uma reserva protegida pela UNESCO. O CJNG controla a distribuição.
Como eles escondem isso? Eles usam cascalho ou material de construção para contornar a alfândega. Engenhoso e letal.
O porto equatoriano onde você paga para trabalhar
A sombra chega ao Equador. Em Puerto Bolívar, província de El Oro, mais de 70% dos pescadores pagam extorsões ao cartel mexicano: até 300 dólares por mês só para poder zarpar.
Machala é hoje um epicentro violento onde gangues como Los Lobos (ligadas ao CJNG) lutam pelo controlo do porto. Em 2024, registaram-se 580 mortes violentas só naquela jurisdição.
“Aqui levamos toneladas de drogas em contêineres”, resume um comandante local.
Os métodos são brutais: roubam motores de pescadores legítimos para usá-los em barcos de traficantes. Eles usam ilhas desabitadas como armazéns clandestinos para armas e motores roubados.
A ironia final
Enquanto comemoram a queda de um chefe, esse maquinário permanece intacto. Não precisa de ‘El Mencho’ para funcionar. Ele extorque pescadores no Equador, derruba florestas em Jalisco e trafica mercúrio de reservas protegidas.
É um grande negócio: controlam tudo, desde a extracção ilegal ao transporte marítimo, incluindo a desflorestação maciça. E fazem-no enquanto as instituições parecem olhar para o outro lado.
A coisa mais triste? Pescadores desaparecendo no mar e florestas virando fantasmas… são apenas danos colaterais nesta guerra sem fim.




