Quando o molho ficou corajoso
Willie Colón nos deixou aos 75 anos, mas seu legado é imortal. Entre todos os seus sucessos, há um que continua a ressoar com força brutal: ‘O Grande Homem’. Não foi apenas mais uma música dançante – foi uma batida de mesa.
Escrita em 1986 por Omar Alfanno, a peça chegou às paradas de dez países e hoje está entre as 50 melhores canções latinas de todos os tempos, segundo a Billboard. Mas os seus números não são o que importa.
A história que ninguém se atreveu a contar
A música acompanha Simón, um jovem que desde criança não se enquadra no que seu pai, Andrés, espera de ‘um grande homem’. A rejeição o leva a emigrar para os Estados Unidos, onde finalmente poderá viver como realmente é: uma mulher trans.
“Quando seu pai a visita, longe de se reconciliar, ele reafirma sua desaprovação”
O resultado é desolador: Simón morre aos 30 anos de idade devido a complicações da AIDS. Seu pai só entende seu erro quando já é tarde demais.
Alfanno revelou que se inspirou em um amigo da adolescência. No meio da crise do VIH e com a forte estigmatização da comunidade LGBTQ+, trazer esta história ao mundo foi um ato de pura bravura.
O incrível é como ele conseguiu reunir temas tão pesados – identidade de gênero, rejeição familiar, discriminação – em um arranjo de salsa que ainda era forte e dançante. As pessoas cantavam a letra enquanto moviam os pés, talvez sem entender completamente o que estavam cantando.
Colón teve uma carreira lendária: os seus tempos com Héctor Lavoe e Rubén Blades são material de estudo obrigatório para qualquer amante de salsa. Mas ‘The Great Man’ mostrou que o gênero poderia ser mais do que uma festa – poderia ser um espelho social.
Hoje, quando ouvimos aquela trombeta de abertura, não nos lembramos apenas de um gigante musical. Lembramos o momento em que a salsa ousou falar daquilo que ninguém falava.




