Quando a montanha de lixo pedia um pouco de drama
Parece que o aterro de Culiacán, entediado com a sua existência monótona como repositório de restos de consumo humano, decidiu organizar o seu próprio espetáculo pirotécnico. Um fogo daqueles que chamam a atenção mobilizado, surpresa, não um, mas dois quartéis de bombeiros. Porque, claramente, um incêndio comum não merece tal exibição. Para aumentar a emoção, a Câmara Municipal contribuiu com quatro canos de água, no que só podemos descrever como uma corrida de revezamento de água contra o relógio. O coordenador da Proteção Civil, Jesús Bill Mendoza, com a calma de quem anuncia o cardápio do dia, explicou que o objetivo é evitar que as lhamas, num ataque de ambição, decidam fazer uma excursão pelas terras vizinhas. O plano? Use máquinas pesadas. Porque nada diz “controle de danos” como uma escavadeira.
Os grupos, numa demonstração de estratégia militar, dividiram as suas forças. Um grupo se dedica a brincar com tratores, abrindo brecha como se fosse a trincheira de uma guerra absurda contra um inimigo que, literalmente, é fumaça e fogo. O outro grupo, os bravos bombeiros, dedica-se à titânica tarefa de apagar o que hoje é descrito como um “incêndio intenso”. Uma descrição tão precisa quanto dizer que o sol está “um pouco quente”.
Fumaça negra: o convidado indesejado que rouba a cena
Enquanto as equipes de emergência suavam, o verdadeiro protagonista deste show apareceu como estrela: uma gigantesca coluna de fumaça negra. Tão fotogênico e alarmante que os habitantes da zona leste da capital Sinaloa, talvez acreditando que se tratava do início de uma invasão alienígena ou da estreia de uma nova temporada apocalíptica, saturaram as linhas de emergência. O responsável, num tom que certamente foi praticado para soar tranquilizador, exortou a população a não se alarmar. Claro, porque uma nuvem tóxica escurecendo o céu é exatamente a paisagem cotidiana que todos desejamos. Os apelos, claro, não eram de admiração, mas de pura ignorância. Quem imaginaria que aquele cheiro de plástico queimado e aquele céu pós-apocalíptico vinham do lugar onde vai parar o nosso lixo?
A instrução, dizem-nos, é apagar o fogo “totalmente”. Um objetivo louvável, sem dúvida, embora nos perguntemos se existe uma forma “parcial” de apagar um incêndio que não conhecíamos. Ele pode ser desligado até a metade, como um interruptor de luz com mau contato? Os bombeiros atacam “uma das frentes”, o que sugere tacitamente que o fogo abriu habilmente várias. Entretanto, a maquinaria pesada continua o seu trabalho de escavação, no que parece uma tentativa desesperada de dar ao fogo um limite geográfico a respeitar, como se as chamas fossem capazes de compreender os sinais de trânsito.
Em resumo, Culiacán está vivendo uma tarde em que seu problema de resíduos sólidos está literalmente virando fumaça. Uma metáfora tão poderosa e fedorenta que quase dói. As autoridades de segurança pública estão observando, provavelmente se perguntando se o seu protocolo inclui lidar com a fúria de uma lata de lixo superaquecida. Tudo isso nos deixa com uma reflexão ardente: às vezes, o que enterramos no quintal da cidade decide nos lembrar de sua presença da forma mais espetacular e poluente possível.
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