Uma abordagem inovadora para uma crise humanitária
No México, onde o número de pessoas desaparecidas ultrapassa 130 mil – o equivalente à população de uma cidade de médio porte – uma equipe multidisciplinar de pesquisadores desenvolveu um método experimental para otimizar a localização de sepulturas clandestinas. Utilizando porcos como modelos biológicos, os especialistas simulam as técnicas utilizadas pelos grupos criminosos para eliminar os corpos, desde o embrulho e corte até ao sepultamento em sepulturas individuais ou colectivas, com variantes como o uso de cal, combustão ou embrulho em cobertores.
Tecnologia aplicada e criminologia
Depois de enterrar as carcaças dos porcos, os cientistas monitoram as mudanças no terreno por meio de mapeamento por satélite, análises geofísicas e estudos biológicos. Eles combinam dados de drones com amostragem in situ para correlacionar alterações ambientais – como compactação do solo ou emissões gasosas – com padrões regionais de criminalidade. Esta abordagem, inspirada na lógica dos pescadores que observam aves para localizar cardumes de peixes, procura reduzir a margem de erro nas escavações reais.
O projeto, iniciado em 2023 com financiamento parcial do governo britânico, envolve instituições como o CentroGeo (especializado em informação geoespacial), a Universidade de Guadalajara e a UNAM, com assessoria da Universidade de Oxford. José Luis Silván, coordenador do estudo, sublinha o seu caráter urgente: “Não é ciência pura, é ciência aplicada. A crise requer ação imediata.”
Contexto de uma tragédia nacional
O México regista mais desaparecimentos do que a Colômbia – um país que sofreu um conflito armado prolongado -, com um aumento de 400% entre 2013 (26.000 casos) e 2024. Desde 2007, foram descobertas cerca de 6.000 sepulturas, embora a sua documentação seja fragmentária. Jalisco, epicentro do Cartel da Nova Geração de Jalisco, lidera as estatísticas com 15.500 desaparecidos. Descobertas recentes, como os restos ósseos em Teuchitlán, mostram a magnitude do problema.
A ONU apontou sinais de desaparecimentos forçados sistemáticos, atribuindo-os a conluio ou negligência por parte das autoridades. Entretanto, grupos de familiares – que durante anos procuraram os seus entes queridos tendo paus e cheiros como únicas ferramentas – localizaram 70% das sepulturas conhecidas, expondo uma realidade que o Estado não pode ignorar.
Limitações e perspectivas futuras
Embora as tecnologias prometam agilizar as buscas, os pesquisadores admitem que os resultados ainda são preliminares. A heterogeneidade dos solos mexicanos e a sofisticação dos grupos criminosos colocam desafios metodológicos. No entanto, o projeto representa um avanço significativo ao integrar criminologia, biologia forense e geociências num protocolo replicável.
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