Um crime com gosto de café amargo e impunidade reciclada
Parece que no México, ter um membro da família na Procuradoria-Geral da República (FGR) é tão eficaz para garantir a segurança pessoal como um guarda-chuva num furacão de categoria cinco. A notícia chega-nos do pitoresco município de Pichucalco, Chiapas, onde o menu do restaurante “O Café Italiano” incluía, de forma assustadoramente improvisada, um prato principal de chumbo e violência.
A vítima, o advogado Rafael Arturo Vila ChávezAlejandro Vila Chávez, delegado da FGR em Guanajuato. Porque no fascinante mundo do crime organizado, a culpa por associação familiar é tão válida quanto qualquer argumento jurídico.
Uma saga de sobrevivência que terminou em tragédia
E aqui está o detalhe que transforma esse triste acontecimento em uma tragicomédia de erros: este não foi o primeiro capítulo da série. Oh não. A advogada Vila Chávez era uma especialista em sobreviver a ataques. Ele era como o Kenny de South Park da profissão jurídica de Chiapas, mas com terno e pasta.
A primeira tentativa foi em novembro de 2022, onde só conseguiram feri-lo. Um ensaio geral, digamos. O segundo ato fracassado ocorreu apenas um ano depois, em novembro de 2023, do qual ele saiu ileso porque, aparentemente, viajava em uma van blindada. Porque o que é a vida sem uma pequena proteção à prova de balas para comprar pão?
Mas a terceira vez, infelizmente, foi o charme. O roteirista desta novela macabra decidiu que o final não poderia ser feliz. Um sujeito, com a determinação de quem chega atrasado ao cinema, atirou nele e fugiu do local com uma eficiência que qualquer entregador de aplicativos invejaria. Tudo isso, num estabelecimento chamado “O Café Italiano”. Porque nada representa “crime de alto impacto” como o aroma de um café expresso acabado de fazer.
A máquina estatal começa a funcionar (ou é o que dizem)
Diante deste desagradável incidente, o Procurador-Geral de Chiapas, Jorge Luis Llaven Abarca, subiu ao palco para pronunciar as palavras que todos esperávamos: foi aberto um processo de investigação pelo crime de homicídio qualificado. Surpresa! E comprovou que o agressor era uma única pessoa, de Tabasco. Um facto geográfico que, sem dúvida, tranquilizará os habitantes de Chiapas e alarmará os de Tabasco.
O melhor de tudo é a mobilização de recursos: mais de 250 agentes em tarefas de investigação e inteligência. Duzentos e cinquenta. Para um único assassino. Ou são extremamente meticulosos ou têm uma fé comovente na capacidade de evaporação do suspeito. Trabalhamos em conjunto com o Ministério Público de Tabasco e, a joia da coroa, a promessa solene de que não haverá impunidade. Porque no México essa frase nunca se tornou um clichê vazio.
Quase se pode visualizar a reunião de crise: “Assassinaram o irmão de um delegado da FGR? Enviem imediatamente 250 agentes! Quem? Aquele que matou o advogado desconhecido na semana passada? Ah, não, para aquele que tem cinco sobrando.”
A verdadeira questão retórica aqui é: precisamos mesmo de 250 pessoas para deduzir que atirar em alguém dentro de um café é errado? Ou será que o orçamento do Ministério Público é gasto em unidades espetacularmente implantadas?
É o México místico onde a justiça é proporcional à posição do familiar da vítima. Onde o seu valor como cidadão é medido em agentes mobilizados post-mortem. E onde, ironicamente, ter ligações no Ministério Público não o salva de ser morto, mas garante que a sua morte seja um acontecimento logístico-operacional.
Então vamos brindar com um café italiano ao advogado Vila Chávez. Por sua resistência invejável e seu trágico azar. E vamos brindar também às 250 almas que procuram um rapaz que, estatisticamente, provavelmente está em Tabasco. Porque a eficiência, assim como a justiça, às vezes prefere viajar devagar e em grandes grupos.
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