México declara guerra ao ‘huachicol fiscal’ com ciência e (supostamente) menos fraude
Parece que o famoso ‘huachicol’, aquele esporte nacional que não é o futebol, sofreu uma mutação. Não se trata mais apenas de perfurar canos no meio da estrada com uma caçamba e grandes esperanças. Não, senhores. A evolução da arte da desonestidade atingiu níveis tão sofisticados que hoje envolve navios, laboratórios e, surpresa, o alto comando da Marinha. Uma reviravolta na história que nem mesmo é a temporada mais recente de sua série favorita sobre drogas.
Neste canto, com o manto de herói (ou pelo menos tenta), está o almirante aposentado Fernando Angli Rodríguez, o novo diretor geral de operações aduaneiras da Agência Nacional de Alfândegas do México (ANAM). A sua missão, caso não estivesse suficientemente clara: evitar que o Tesouro continuasse a meter o dedo na lâmpada. E a sua arma secreta não é uma superpotência, mas algo que parece um episódio de CSI: quatorze laboratórios para analisar hidrocarbonetos. Porque quando o problema é que dizem que gasolina é petróleo, você precisa de um cientista, não de um policial.
“São 14 laboratórios, sete irão atuar nas alfândegas de fronteira e sete nas alfândegas marítimas”, declarou o almirante durante o XXIX Congresso Anual de Agentes de Navegação, um evento que parece tão emocionante quanto parece, mas nesta ocasião teve sua cota de drama. A estratégia é criar laboratórios exclusivos para hidrocarbonetos e determinar, de uma vez por todas, se aquele líquido que chega é para fritar batatas ou para movimentar seu carro. Uma diferença não pequena, principalmente para os cofres públicos.
O “eu não era” institucional e o expurgo trabalhista
Com uma calma que dá um pouco de inveja, o responsável garantiu que desde a sua chegada à agência, entre abril e maio, o ‘huachicol fiscal’ está em quarentena. “Acho que tudo isso vai funcionar muito bem”, disse ele no Congresso da Associação Mexicana de Agentes de Navegação (Amanac). Claro, é fácil ser otimista quando você acaba de chegar e herda o desastre. É a versão do governo de mudar para um apartamento novo e dizer “nada aconteceu aqui” enquanto ignora aquele cheiro estranho que sai do armário.
Mas nem tudo é confiança cega. Houve também uma confissão que parece quando você percebe que seu ex era tóxico e promete fazer melhor *deslizar* da próxima vez. Angli Rodríguez destacou que aumentaram os níveis de análise na contratação de pessoal. Basicamente, não vão mais dar emprego ao primo do amigo do cunhado que “é muito legal”. “Não contratamos mais ninguém que não seja profissional ou não tenha diploma. Estamos selecionando pessoal adequado para trabalhar conosco”, acrescentou. Ou seja, adeus aos filtros de informação e olá aos filtros do LinkedIn. Uma medida necessária, considerando que o problema anterior parece ter sido, aham, *interno*.
E o processo atual é tão ágil quanto uma fila no banco. Atualmente, as análises de hidrocarbonetos em navios são realizadas desde os portos até os laboratórios da Cidade do México. O resultado? Um processo que leva 24 horas inestimáveis. Enquanto um grupo de cientistas na capital decide se o produto é o certo para importar, os navios esperam nos portos como nós esperamos por uma pizza, mas com milhões de dólares em jogo e capitães cada vez mais mal-humorados.
A origem do caos: quando a Marinha brincava de ser alquimista
É aqui que a trama fica interessante. Acontece que para que este ‘huachicol fiscal’ de alta qualidade entrasse no país, era necessário um ingrediente chave: um selo oficial de aprovação. E segundo apuração da Procuradoria-Geral da República (FGR), esse selo veio diretamente do Laboratório Central da ANAM, que, atenção, estava sob a direção de comandos navais. Basicamente, as mesmas pessoas que deveriam proteger as águas territoriais certificavam como petróleo o que na verdade era gasolina. É o equivalente a um nutricionista atestar que um donut é uma salada. Um nível de audácia que merece um Oscar.
Em essência, o ‘huachicol fiscal’ consiste na importação de gasolina como petróleo para evitar impostos. Um truque simples, mas que exige uma rede de cumplicidades que irrita e surpreende ao mesmo tempo. Segundo a FGR, vários navios introduziram milhões de litros de combustível ilegal através da Alfândega de Altamira e Tampico, e o fizeram supostamente com a colaboração de altos comandantes da Marinha. Essas remessas, imagine, foram autorizadas com o aval da sede da ANAM na Cidade do México, o coração do sistema.
A investigação da FGR contra os irmãos Roberto e Fernando Farías Laguna, oficiais da Marinha identificados como líderes do contrabando de combustíveis, pinta um quadro surreal: os laboratórios da ANAM classificaram como óleo diesel a carga de 30 navios que, numa reviravolta cómico-trágica, transportavam efectivamente gasolina. Trinta vezes alguém num laboratório olhou para um tanque cheio de gasolina, sentiu o cheiro da gasolina e escreveu abertamente num formulário: “Sim, isto é petróleo”. A pergunta de um milhão de dólares é: em que universidade se ensina esse método de análise?
Em resumo, temos um novo capítulo na luta épica entre corrupção e instituições. Por um lado, uma rede de contrabando de combustíveis que operava impunemente dentro do sistema. Do outro, uma nova administração aduaneira que promete limpar a casa com laboratórios e pessoal mais qualificado. Parece bom no papel, é um bom título. Mas num país onde a realidade supera a ficção todas as manhãs, só nos resta cruzar os dedos, seguir o dinheiro e perguntar-nos: será que estes catorze novos laboratórios vão saber distinguir o petróleo da gasolina?
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