Da música natalina à geopolítica: a curiosa cena do protesto
Naquilo que sem dúvida parece ser a combinação mais surreal do ano, o vocalista do Café Tacvba, Rubén Albarrán, decidiu que o cenário ideal para uma análise geopolística de alta tensão não era um fórum de debate, mas um concerto da Orquestra Pérez Prado no coração do Zócalo da capital. Entre notas de mambo e o espírito festivo das “Luzes de Inverno”, Albarrán deixou cair a pérola da noite: “Trump é um terrorista!”. Porque, claro, nada diz “Boas Festas” como rotular um ex-presidente americano de terrorista na frente de centenas de famílias que estavam apenas esperando para ouvir “Mambo No. 5”.
O motivo desta joia discursiva foi, segundo o músico, a incursão dos Estados Unidos em território venezuelano e a captura de seu presidente, Nicolás Maduro. Albarrán, com a solenidade de quem anuncia o próximo tema, declarou: “Hoje é um dia triste para a América Latina”. Imediatamente a seguir, esclareceu, para tranquilidade dos puristas, que a sua posição não era propriamente um endosso ao regime chavista, mas sim uma condenação da “acção violenta dos EUA para ocupar um país livre e soberano”. Uma linha vermelha fina, muito fina, que certamente todos os participantes puderam apreciar entre a agitação e as crianças pedindo algodão doce.
O menu completo do ativismo expresso
Mas por que limitar-se a um único tópico? Aproveitando que o microfone estava aberto e o público cativo, o artista completou a sua discurso político com um combo de causas. Levantou palavras de ordem em defesa da água (elemento vital, aliás, também para misturar ponche) e, como toque final, pediu o boicote à próxima Copa do Mundo, em junho. Um golpe de mestre: depois de ficar indignado com a soberania de uma nação, o que poderia ser melhor do que planejar a sabotagem do evento esportivo mais assistido do planeta? A transição foi tão natural quanto passar de uma canção de natal para um grito de guerra.
O evento, concebido para ser uma celebração de inverno e de família, foi assim transformado numa manifestação de protesto improvisada. É de se perguntar se os organizadores esperavam essa reviravolta. A fala foi entre o roteiro de iluminação e os ensaios da orquestra? A imagem do músico discursando sobre o intervencionismo estrangeiro diante de uma cena de Natal é uma daquelas que resume perfeitamente os tempos atuais: a fronteira entre o entretenimento, o ativismo social e o comentário internacional é mais tênue do que o significado da letra de “La Muralla”.
A atitude de Albarrán levanta, com seu estilo habitual, uma questão incômoda e cômica ao mesmo tempo: algum palco com público se tornou uma plataforma válida para lançar proclamações de alcance global? Sob esta lógica, em breve poderemos ouvir análises da crise climática durante um espectáculo de palhaços, ou um apelo à reforma fiscal a meio de um jogo de basebol. O ativismo expresso, rápido, sem filtros e nos lugares mais inesperados, parece ser a nova norma. É claro que a eficácia de misturar um mambo com um apelo ao boicote ao Campeonato do Mundo está sujeita a avaliação. Quantos dos presentes, entre espanto e confusão, escreveram mentalmente “cancelar assinatura de serviços de streaming esportivo” junto com “comprar a árvore de Natal”?
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