Um acordo que parece trilha sonora de filme de ação, mas na vida real
Imagine a cena: Claudia Sheinbaum, com a bandeira mexicana tremulando em câmera lenta (pelo menos em nossas mentes), anuncia um acordo histórico com o vizinho do norte. Não, não é o trailer da próxima temporada de Narcos, é a vida real, pessoal. Em plena crise de segurança em Sinaloa, um cenário que parece retirado de uma série, mas com consequências muito reais, o presidente lançou a bomba: os Estados Unidos, finalmente, comprometem-se a reforçar as operações no seu próprio território para controlar o fluxo de armas para o México. E tudo isto, diz ela, sem vender um pingo de soberania. Parece bom demais para ser verdade, certo?
A presidente, com uma confiança que nos faz pensar se ela tem um quadro de visão com a palavra “estratégia federal” no centro, deixou claro que o Governo dos Estados Unidos não é um amigo com benefícios a quem tudo pode ser concedido. Sua frase, que agora está pronta para ser impressa em camisetas e canecas, dizia: “soberania é algo que nunca será negociado, nunca.” Uma mensagem clara, direta e com a qual certamente mais de um funcionário americano ficou com o café suspenso no meio do caminho. Basicamente, a mensagem era: “Sim à colaboração, mas não ao ‘e se for melhor você me obedecer?'”.
Mazatlán como testemunha: coordenação, não subordinação
O cenário não poderia ser mais cinematográfico: Mazatlán, com o governador Rubén Rocha Moya como copiloto. Sheinbaum explicou que o recém-formado Grupo de Implementação de Segurança México-Estados Unidos é o novo “grupo de bate-papo” VIP onde paradigmas estão sendo quebrados. Segundo ela, “um acordo deste tipo nunca foi alcançado”. A lógica, que durante anos foi um monólogo sobre o que sai do México, finalmente deu uma guinada de 180 graus. Agora, a principal questão em debate é o fluxo de armas provenientes dos Estados Unidos. Algo que, sejamos honestos, é como se numa relação tóxica uma das partes reconhecesse pela primeira vez que, que surpresa, elas também têm responsabilidades.
Mas nem tudo é diplomacia de alto nível. Na frente local, a estratégia parece ser “gabinete de segurança por assinatura”. A cada quinze dias, os secretários de Defesa, Marinha e Segurança Pública se reúnem em Sinaloa. É como se o gabinete de segurança federal tivesse residência temporária no estado. Sheinbaum prometeu que o apoio com elementos de todas as forças federais será constante. Uma presença que, esperamos, seja mais eficaz do que um filtro do Instagram para esconder problemas subjacentes.
A estratégia federal, diz-nos o presidente, não consiste apenas em aparecer com uniformes impressionantes. Baseia-se em um combo que parece bom em teoria: atacar as causas da violência (alguém disse bolsas e empregos?), fortalecer a Guarda Nacional (aquela que às vezes vemos mais nos memes do que nas ruas) e trabalhar com inteligência e investigação. Ou seja, a receita mágica que todos os governos prometem mas que poucos conseguem temperar corretamente. “Definimos uma estratégia e estamos convencidos de que vai funcionar”, declarou com uma fé que invejamos. Esperançosamente, sim, porque os cidadãos já estão fartos de finais em aberto.
A soberania não é um NFT: não é negociada, não é transacionada
No capítulo “relacionamento com Washington“, Sheinbaum foi mais claro do que um tutorial do TikTok. Ele enfatizou que a cooperação bilateral não é um cheque em branco. O mantra era: coordenação sim, colaboração também, mas interferência, absolutamente não. “Coordenamos, colaboramos, mas nunca nos subordinamos”, enfatizou. Uma posição que, na linguagem das redes, se traduz como “estabelecer fronteiras” com o poder mundial. Algo necessário, considerando a dinâmica histórica entre os dois países.
O detalhe mais suculento veio com a revelação da primeira reunião do comitê bilateral após a visita do polêmico Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Nessa reunião, a agenda de segurança foi virada de cabeça para baixo. Pela primeira vez, a questão número um não era o fluxo de drogas para o norte, mas o fluxo de armas para o sul. E aqui está o acordo inédito deste tipo: os Estados Unidos comprometeram-se a reforçar as operações internas para acabar com este tráfico. Uma mudança de narrativa que, caso se concretize, poderá ser mais relevante do que qualquer tweet diplomático.
Sheinbaum não se cansa de repetir que a soberania é a “essência do povo do México” e que, portanto, não está no menu de negociação. Ele insistiu que o país vive um “momento especial”, com avanços em segurança e desenvolvimento. Ele concluiu com “Viva Sinaloa!” o que, para além do protocolo, soou como um voto de confiança a uma entidade que tem sido o epicentro da violência. A questão que paira no ar, como uma mensagem de texto vista mas não respondida, é se essas palavras se tornarão fatos tangíveis ou se permanecerão no discurso. Para o bem de todos, espero que seja o primeiro. O tempo, esse juiz implacável, terá a última palavra.
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