O ‘quase’ quase nos matou: a crônica de uma gravata que tem pouco gosto
Imagine a cena: os Pumas, aquele time que ultimamente tem mais altos e baixos do que nossa saúde mental coletiva, estão plantados no Estádio BBVA, templo do futebol mexicano moderno, para enfrentar o Monterrey. Não é um rival qualquer, é o vizinho que tem piscina e o carro do ano, aquele que sempre exibe suas conquistas nas reuniões de família. E lá estavam os nossos garotos de orelhas azuis, com a coragem de quem decide assistir uma maratona de filmes de terror num sábado à noite. Alerta de spoiler: o final não foi tão assustador quanto esperávamos, mas também não foi o final feliz que merecíamos.
A verdade é que, contra todas as probabilidades e contra a nossa própria sanidade como torcedores, o time de Efraín Juárez não encolheu. Eles jogavam um contra um, como quando você enfrenta aquele amigo que sempre joga no modo expert nos videogames e, por alguns minutos gloriosos, você sente que poderia vencê-lo. Inclusive, em um plot twist que ninguém esperava, Alan Medina apareceu com um grande gol que nos fez acreditar em milagres. Foi aquele momento de pura euforia, comparável a encontrar uma barraca de tacos aberta às 3 da manhã. Hope, aquela má conselheira, começou a fazer o seu trabalho.
E então, a realidade fez sua entrada dramática
Mas é claro que isto é o futebol mexicano, e a estabilidade emocional é um luxo que não podemos permitir. A vantagem durou tanto quanto um ‘story’ do Instagram, porque apareceu o Sérgio Ramos, aquele homem com mais experiência em campo do que nós nas decepções amorosas, para marcar pênalti com a frieza de quem devolve um café porque não estava na temperatura exata. 1-1. E assim, num piscar de olhos, voltamos ao ponto de partida, com a mesma sensação de vazio existencial que nos deixa com mais uma temporada da nossa série favorita cancelada sem aviso prévio.
Este resultado significa que o Pumas está há cinco jogos consecutivos sem saber o que significa vencer. A sequência inclui dois empates (frente ao Tigres e estes mesmos Rayados) e três derrotas (contra FC Juárez, América e Chivas). Basicamente, é o equivalente esportivo de seu Wi-Fi cair, sua torrada queimar e perceber que é segunda-feira, tudo ao mesmo tempo. A classificação Liguilla, aquele sonho dourado que todos temos na gaveta, está agora por um fio mais fino do que a paciência de quem espera uma entrega ao domicílio.
Na coletiva de imprensa pós-jogo, Luis “Lucho” Pérez, o assistente técnico que deve ter a resistência emocional de um iogue, apareceu para mostrar sua cara. Com a filosofia de vida de quem acredita que um dia ruim pode ser resolvido com um bom meme, ele declarou: “Enquanto estiver em nossas mãos, vamos competir 100 por cento.” Afirmou que estão convencidos de que, se conseguirem entrar na Grande Festa, podem ser uma equipe “muito perigosa”. Em outras palavras, eles são o amigo quieto que de repente se torna a vida da festa quando você menos espera.
Lucho não poupou elogios ao desempenho e atitude da equipe. Ele disse que “não é fácil chegar a um campo como este, tão complicado e independente”. Ele reconheceu que os meninos se saíram “magnificamente” e que até tiveram personalidade para tirar vantagem. Mas, numa reviravolta que todos sentimos na alma, ele admitiu que “ficamos aquém porque poderíamos ter vencido”. Essa frase resume perfeitamente a nossa vida adulta: sempre ficamos aquém, mas com a convicção de que poderíamos ter feito melhor.
Em um momento de lucidez que todos precisávamos ouvir, Pérez soltou uma verdade como um punho: “O futebol não vale a pena”. Vamos lá, às vezes a vida não é justa, como quando o algoritmo da sua rede social favorita decide não mostrar o que você realmente quer ver. Ele aceitou que, estatisticamente, a equipe deveria somar mais pontos pelo que fez tanto em casa quanto fora. Mas, numa viragem optimista que nos obriga a manter a fé, garantiu que “acreditamos muito naquilo que fazemos todos os dias”, apesar de não termos os resultados desejados. Seu plano agora é ir “jogo a jogo”, sem mirar na Liguilla com antecedência, concentrando-se no próximo duelo contra o San Luis.
No final das contas, essa gravata nos deixa com um sabor agridoce, como café com açúcar diet. Por um lado, o feito de ter enfrentado um dos estádios mais intimidantes da Liga MX é digno de elogio. Por outro lado, a dor no coração de ver como perdemos pontos-chave para a classificação dói mais do que pagar impostos. A esperança, porém, é a última coisa a ser perdida. A reta final do torneio se apresenta como os últimos capítulos de uma série onde tudo pode acontecer. Os Pumas precisam encontrar a consistência que perderam, assim como encontramos as chaves que sempre perdemos. A mensagem é clara: ou todos se conectam ao mesmo tempo ou a festa está arruinada.
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