Um roteiro político escrito pelos próprios atores
Nem o acidente de trem, nem o orçamento apertado, nem mesmo o silêncio do Palácio Nacional. Nada impediu Solomon Jara. Neste domingo, Oaxaca escreve um capítulo inédito: torna-se o primeiro estado a ativar a consulta de revogação de mandato. Mas há uma reviravolta na trama.
A iniciativa não partiu dos seus detratores, mas dos seus apoiadores. É uma jogada de mestre. Mais de três milhões de pessoas foram convocadas às urnas para decidir se o governador fica ou sai devido à “perda de confiança”.
“O exercício é simbólico e poucos esperam que leve à sua demissão”, admitem até dentro do próprio processo.
Seu verdadeiro objetivo não é tirá-lo, mas demonstrar músculos. É uma mobilização calculada para mostrar a força do Morena em seu reduto sulista.
As sombras atrás do palco
Mas como em qualquer bom drama político, há atos que não constam da programação oficial. Antes do Dia D, já choviam reclamações.
Fala-se em uso de recursos públicos para coleta de assinaturas e propaganda ilegal em favor do presidente. O Instituto Eleitoral local (IEPCO) teve que remover centenas de lonas e outdoors.
A oposição aponta o dedo às associações civis recentemente criadas – como os Defensores da Primavera – acusando-as de serem frentes para promover a consulta. O custo total gira em torno de 100 milhões de pesos, dinheiro que os críticos chamam de gasto em puro marketing político.
Somam-se a isso acusações de nepotismo. Vários familiares de Jara ocupam cargos-chave na administração, alimentando dúvidas sobre uma concentração excessiva de poder.
“A consulta representa um passo em direção à democratização”, defende Flavio Sosa, secretário estadual de Cultura e ex-líder da APPO.
Há outro detalhe crucial. Os promotores ligam este exercício à histórica mobilização popular de 2006. Não se trata apenas de Jara, argumentam; Trata-se de consolidar mecanismos onde as pessoas avaliam os seus governantes.
Com o encerramento das urnas nos 570 municípios, a mensagem é clara. Em Oaxaca, o guião é escrito por quem está no poder, convidando o público a ser figurante na sua própria ratificação. A cortina já fechou. Agora é hora de ver os aplausos… ou a falta deles.




