O país das figuras bonitas (e dos sustos feios)
Bom, acontece que em meio ao drama nacional que parece um episódio particularmente intenso de uma série sobre tráfico de drogas, há uma notícia que, em tese, é motivo de entusiasmo. Nada mais nada menos que o IMSS, aquela instituição que todos amamos ou odiamos dependendo de quanto tempo levamos para sermos atendidos, anunciou que temos mais de 22,6 milhões de empregos registrados. Sim, você leu certo, mais de vinte e dois milhões. Um número que, segundo especialistas em estatística, é o segundo mais elevado desde que os registos começaram, nos longínquos tempos de 1997, quando o “boom” era o NAFTA e não o TikTok.
A pessoa encarregada de divulgar esta informação, que parece boa demais para ser verdade, foi ninguém menos que a presidente Claudia Sheinbaum. Na sua já tradicional conferência matinal, que para muitos é o substituto do café, ele explicou que quase 200 mil novos empregos foram criados só em Outubro. Cuidado, aí vem o asterisco mental: isso sem contar os trabalhadores de aplicativos e plataformas digitais, aqueles heróis anônimos que nos trazem comida e compras enquanto assistimos Netflix.
A diretora do IMSS, Zoé Robledo87,4%, para ser exato) são empregos permanentes. Ou seja, não são daqueles que duram tanto quanto um hit de verão. E se isso não bastasse, o salário base de contribuição gira em torno de 623,5 pesos por dia, o que significa que no último ano aumentou cerca de 43 pesos. Não se trata de comprar um iate, mas é algo nestes tempos de inflação.
E depois há a outra realidade
Mas como a vida não pode ser perfeita, e este roteiro parece escrito para nos manter em suspense, na mesma manhã da boa notícia do emprego, o clima ficou pesado. Acontece que o presidente municipal de Uruapan, Carlos Manzo Rodríguez, foi assassinado. Um lembrete brutal de que, não importa quantas figuras verdes pintem o quadro económico, a violência continua a ser a convidada indesejada na festa do desenvolvimento nacional.
O presidente Sheinbaum, com um tom que ia dos dados esperançosos à firme condenação, rejeitou categoricamente qualquer possibilidade de impunidade. Prometeu todo o apoio do governo federal à Promotoria de Michoacán para encontrar os responsáveis, “tanto materiais como intelectuais”. Vamos, a promessa de sempre: que desta vez eles vão pegar os bandidos.
E num momento que mistura o discurso de segurança com um quase “nada acontece aqui, senhores estrangeiros”, o presidente deixou cair a pérola de que o México é uma nação livre e soberana, fechando a porta a qualquer possibilidade de intervenção externa. Caso alguém duvide.
A frase que ganhou o prêmio de drama foi: “Estaremos perto de Michoacán, eles não estão sozinhos e não vamos deixá-los sozinhos.” Uma afirmação que soa bem em um discurso, mas na prática parece tão distante quanto da última vez que sua paixão lhe respondeu. Criticou também o uso político da tragédia, porque aparentemente até no infortúnio há quem queira tirar vantagem.
Em resumo, mais um dia na vida do México: por um lado, os números do emprego que nos fazem pensar que talvez, apenas talvez, as coisas estejam melhorando. Por outro, a dura realidade da insegurança que nos atinge e nos lembra que o caminho que temos pela frente é longo, complicado e, por vezes, francamente assustador. Um país de contrastes, como diriam os avós.
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