O desafio de criar uma menina transexual no Judaísmo Ortodoxo
Ziva Mann, mãe de um menor transgênero e membro de uma sinagoga inclusiva em Newton, Massachusetts, lembra como sua filha, a quem ela carinhosamente apelidou de “Giggles” por sua alegria contagiante, começou a perder o brilho durante o ensino fundamental. “Foi como vê-lo desaparecer”, diz Mann. A tristeza de Ellie, sua filha, estava ligada a uma profunda luta interna para assumir sua verdadeira identidade de gênero.
Durante a pandemia, em uma conversa íntima em sua sala, Ellie revelou: “Mãe, sou uma menina.” Embora a surpresa inicial fosse inevitável, Mann sentiu admiração imediata pela bravura da filha. “Eu disse: ‘Obrigado por compartilhar isso comigo'”, lembra ele. Desde então, a família tem trabalhado para apoiar Ellie numa comunidade judaica ortodoxa onde os papéis tradicionais de género são rígidos.
A complexidade da aceitação em ambientes religiosos
No judaísmo ortodoxo, a estrutura comunitária é geralmente binária: escolas segregadas por gênero e sinagogas com espaços divididos para homens e mulheres. Myriam Kabakov, cofundadora da Eshel, uma organização que apoia a comunidade judaica LGBTQ+, explica: “A ortodoxia de hoje não tem espaço para identidades não-binárias. Muitas pessoas transexuais são excluídas das suas sinagogas durante e após a sua transição.”
Para resolver esse problema, Eshel criou o programa “Sinagogas de boas-vindas”, que conecta famílias a templos inclusivos. Segundo Kabakov, 300 rabinos e 160 famílias com crianças transexuais fazem parte desta rede. Deslie Paneth, mãe de Ollie, um jovem trans, destaca: “Eshel nos salvou. Sem eles, não teríamos encontrado apoio emocional ou espiritual.”
Mediação entre fé e identidade
Mann se identifica como ortodoxo moderno, equilibrando a lei judaica com os valores familiares. Para ela, aceitar a identidade de Ellie foi um ato de preservação de vida: “Só quebramos regras para salvar alguém. E isso a salvou de um coração partido”. Ao contrário de outras famílias expulsas das suas sinagogas, Mann recebeu o apoio do seu rabino, que garantiu que Ellie seria tratada com dignidade.
A sua história reflecte uma mudança gradual em algumas comunidades religiosas, onde o diálogo sobre a diversidade de género está a ganhar terreno. “Ela é minha filha e isso importa mais do que qualquer expectativa de gênero”, conclui Mann.
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