O show do clima chega à Amazônia, com assento luxuoso vazio
BELÉM, Brasil. Numa reviravolta que ninguém previu (ou talvez todos), as negociações climáticas da ONU aterraram no quintal do planeta, a Amazónia brasileira. Um elenco de dignitários mundiais reuniu-se para supostamente acelerar os esforços para conter o aquecimento global. A tarefa: reduzir a poluição por carbono. O problema: parece que alguém se esqueceu de enviar os convites aos principais negociadores dos EUA, ou talvez eles apenas tivessem agendado uma lavagem de cabelo. Que detalhe insignificante, certo?
O anfitrião, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a solenidade de quem anuncia um novo estádio, declarou que a emergência climática aumenta a desigualdade. Uma revelação chocante para aqueles que pensavam que os desastres naturais eram grandes equalizadores. Escolheu a cidade de Belém, explicou, em vez de “uma cidade consolidada”, para que todos pudessem ver em primeira mão a paisagem que estamos destruindo. É como trazer uma convenção de caça furtiva para um santuário de elefantes: uma experiência envolvente.
Na conferência, carinhosamente conhecida como COP30, Lula deixou cair outra joia: “O aumento da temperatura global está espalhando dor e devastação, especialmente entre as populações mais vulneráveis.” Graças a Deus ele esclareceu isso, porque se poderia pensar que os furacões e as secas escolhem as suas vítimas com base num sofisticado sistema de mérito. Caso alguém esperasse soluções milagrosas, os organizadores foram rápidos em esclarecer que este não é o ano para acordos ambiciosos. Não, esta é a “COP de implementação”, um eufemismo sofisticado para “a tarefa que deveriam ter realizado anos atrás”. Os países tinham a simples missão de apresentar planos nacionais atualizados. Basicamente, a tarefa do verão, mas com o futuro da humanidade em jogo.
Um apelo à unidade, ou como montar um quebra-cabeça sem peça-chave
Os participantes, num motim de originalidade, enfatizaram a cooperação. Simon Stiell, secretário do clima da ONU, lembrou aos negociadores que o seu trabalho é “combater juntos esta crise climática”. Uma ideia revolucionária, sem dúvida. André Corrêa do Lago, presidente da conferência, deu um passo além e instou os presentes a participarem de um “mutirão“, palavra indígena que significa um grupo que se reúne para uma tarefa. Uma bela metáfora, infelizmente estragada pelo facto de o vizinho mais barulhento e com o carro mais poluente do bairro, Os Estados Unidos, ter decidido não sair de casa.
A administração de Donald Trump, cujo cepticismo climático é tão conhecido como o seu penteado, não só não enviou negociadores de alto nível, como está em processo de retirada do Acordo de Paris pela segunda vez. É como assinar um acordo para apagar um incêndio e depois despejar gasolina novamente alegando que a fumaça incomoda. O Acordo de Paris, o pacto global de uma década que procurou limitar o aquecimento a 1,5 graus Celsius, é agora visto por muitos cientistas como uma meta tão realista quanto encontrar um unicórnio no estacionamento de um shopping center.
A ironia aqui é deliciosa. Os Estados Unidos libertaram mais dióxido de carbono na atmosfera do que qualquer outro país na história. É o campeão mundial indiscutível da poluição acumulada. A China pode ser o actual primeiro poluidor, mas foram os EUA quem preparou a mesa para este banquete tóxico. Diante dessa ausência monumental, Lula, com a elegância de um diplomata, atacou a desinformação climática sem citar ninguém em particular. “A COP30 será a COP da verdade”, afirmou. “Eles atacam as instituições, atacam a ciência… É hora de impor uma nova derrota aos negacionistas”. Uma afirmação corajosa, embora nos perguntemos se os negadores estavam prestando atenção.
As consequências de jogar sozinho em um jogo de equipe
A embaixadora de Palau, Ilana Seid, cuja nação insular provavelmente tem mais a perder do que a maioria, disse que a retirada dos EUA “realmente mudou a gravidade” do sistema de negociação. Uau, sério? Todd Stern, antigo enviado dos EUA para o clima, foi ainda mais direto: “Foi bom que não tenham enviado ninguém. Não seria construtivo se o fizessem.” Ou seja, é melhor que a criança que quebra brinquedos não venha para a creche. Entretanto, alguns participantes tentam consolar-se salientando que cidades, estados e empresas dos EUA estão a assumir a liderança. É como se, enquanto o capitão abandona o navio que está afundando, alguns passageiros tentassem tirar água com baldes. Admirável, mas insuficiente.
Lula e Stiell tentaram colocar um pouco de otimismo nesse circo de absurdos, apontando que o Acordo de Paris funciona… até certo ponto. Como exemplos, citaram a recente devastação causada pelo furacão Melissa no Caribe, pelos tufões no Vietnã e nas Filipinas e por um tornado no sul do Brasil. Porque nada diz “sucesso” como uma litania de desastres naturais cada vez mais frequentes e intensos. Os cientistas, esses desmancha-prazeres dos dados, insistem que estes eventos extremos são mais comuns porque a Terra está a aquecer. Mas ei, quem presta atenção neles?
Lula, com a contundência de quem vê a realidade diante dos olhos, resumiu perfeitamente: “A mudança climática não é uma ameaça do futuro. Já é uma tragédia do presente”. E no meio desta tragédia, o mundo continua negociando, discutindo e implementando, enquanto o protagonista principal do espetáculo prefere ficar nos bastidores, recusando-se a aceitar que a peça já começou e o palco está em chamas.
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