Resgate da memória histórica
A Guatemala enfrenta uma corrida contra o relógio para proteger cerca de 60 mil arquivos de vítimas do conflito armado interno (1960-1996). Os documentos, compilados ao longo de uma década pelo Programa Nacional de Reparações (PNR), procuram compensar quem sofreu abusos. O governo do presidente Bernardo Arévalo tem até janeiro de 2028 para conseguir isso.
O PNR nasceu em 2003, após os Acordos de Paz de 1996, mas durante os governos de Jimmy Morales (2016-2020) e Alejandro Giammattei (2020-2024) o programa ficou inativo e foi ordenada a sua liquidação. Os depoimentos foram abandonados.
Trabalhadores de um projeto financiado pela UNESCO tentam recuperar o arquivo. Erick Briones, assistente de arquivo, descreveu as condições: “Caixas úmidas, amontoadas, incompletas, arquivos quebrados”. O objetivo é que esse acervo seja declarado patrimônio documental mundial.
Entre os casos está o de Manuel Botom Uz, desaparecido aos 4 anos em 1982. Segundo depoimentos, ele e seus quatro irmãos foram agredidos em Quiché por militares e patrulheiros civis. Os seus irmãos foram entregues a familiares, mas Manuel desapareceu. Vinte anos depois, seu corpo foi localizado e identificado em uma cova clandestina.
Elvin Díaz, comissário presidencial para os Direitos Humanos, disse: “Havia uma intenção por parte dos governos Morales e Giammattei de apagar a memória coletiva”. Explicou ainda que o objetivo do PNR era a ajuda humanitária, mas os ficheiros contêm “informações relevantes para uma investigação criminal”.
Os arquivos detalham homicídios, desaparecimentos forçados, agressões sexuais e recrutamento forçado. Segundo relatos, o conflito deixou cerca de 200 mil mortos e 45 mil desaparecidos.
O projeto futuro planeja digitalizar o arquivo para acesso universal. Um relatório da ONU sobre desaparecimentos forçados, publicado no mês passado, indicou que durante os governos Morales e Giammattei funcionou “uma política sistemática de desmantelamento de instituições para a paz e a justiça”.
Os arquivos irão para o Plano de Reparação e Dignificação das vítimas anunciado por Arévalo. Procura centralizar a informação dispersa para continuar a compensação e incluir casos de desaparecimento no Mecanismo de Busca Humanitária.




