O teatro climático se torna uma tragédia
Veja os dados e é difícil respirar. O que antes era uma estranheza climática é agora o perigoso novo normal. Um estudo publicado na Science Advances acaba de dar números a um pesadelo que os agricultores já sentem: as ondas de calor que desencadeiam secas brutais estão a aumentar.
Na década de 1980, esta combinação letal cobria apenas 2,5% da Terra todos os anos. Em 2023, já atingiria 16,7%. A curva não é uma linha, é um taco de hóquei.
“O estudo ilustra um ponto-chave: os impactos mais prejudiciais tendem a vir de eventos extremos compostos”, disse Andrew Weaver, climatologista da Universidade de Victoria.
Por que a ordem é importante? Calor primeiro, desastre depois
Aqui está o detalhe macabro. Cientistas coreanos e australianos descobriram que quando o calor chega primeiro, a seca que se segue é mais violenta. Seca a terra num piscar de olhos, sem dar tempo de reagir.
“Isso também leva a ‘secas repentinas’, que são mais prejudiciais… porque ocorrem repentinamente”, explicou Yong-Jun Kim, principal autor do estudo.
É como se o tempo tivesse aprendido a desferir uma combinação de golpes. Primeiro uma mão direita de calor extremo, e quando a terra fica tonta, o gancho da seca vem para derrubá-la.
Os exemplos são assustadores. A cúpula de calor do Noroeste do Pacífico em 2021, os incêndios australianos de 19 a 20, a crise do Yangtze na China. Padrões que se repetem.
O mais preocupante é o que os investigadores chamam de “ponto de viragem” por volta do ano 2000. Desde então, a taxa de aumento aumentou oito vezes. Algo mudou para pior no sistema.
“Isso coincidiu assustadoramente com o início do rápido aquecimento do Ártico”, disse Jennifer Francis, do Woodwell Climate Research Center.
Kim e Yeh vão mais longe e especulam: Já ultrapassamos um limiar irreversível? O planeta poderia ter entrado numa nova fase em que estes acontecimentos compostos seriam a regra, e não a excepção.
Entretanto, outro fenómeno El Niño está a preparar-se para o final do ano. Mais um ator pronto para subir ao palco deste teatro climático que tem cada vez menos roteiro e improvisações mais trágicas.




