A Arte da Negociação (ou como fazer com que 25% pareçam 10%)
Numa reviravolta que nos lembra que a política comercial internacional às vezes parece mais um bazar do que uma ciência exata, o secretário da Economia, Marcelo Ebrard, saiu com uma calculadora nas mãos para anunciar que a temível tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos aos caminhões e ônibus mexicanos poderia, após uma série de malabarismos contábeis, permanecer em 10% muito mais suportáveis. Magia? Não, simplesmente a aplicação milagrosa de uma regra que exclui do pagamento todas as autopeças fabricadas em solo americano.
Parece que, pela primeira vez, a profunda interdependência económica funciona a favor do México. Ebrard, com a desenvoltura de um professor de álgebra, explicou que, em média, os veículos pesados aqui montados contêm cerca de 60% de componentes americanos. Assim, fazendo o dever de casa que muitos de nós evitamos na escola, a taxa efetiva despenca. É uma pena que estes mesmos descontos não possam ser aplicados aos impostos que os cidadãos comuns pagam.
A Defesa do T-MEC e um Decreto com Cheiro de Ecologia (e Conveniência)
Mas nem tudo são sorrisos e cálculos otimistas. O responsável foi claro ao salientar que a primeira coisa que o México irá pedir na próxima revisão do T-MEC é, basicamente, que o tratado seja cumprido. Uma ideia radical, nós sabemos. A actual imposição de tarifas é, na sua opinião, uma clara violação do acordo. É como se seu colega de quarto decidisse cobrar pelo uso da água, mesmo que o contrato diga que está incluído. A Casa Branca, por sua vez, mantém um silêncio que bem poderia ser interpretado como “veremos”.
E, como nas melhores novelas, justamente quando este desafio comercial é anunciado, o governo mexicano retira um decreto com um propósito louvável: proteger o meio ambiente. A medida proibirá a importação de veículos pesados usados com mais de 10 anos. A secretária Alicia Bárcena argumentou, com toda a razão, que embora os veículos a diesel representem apenas 5% da frota, são responsáveis por 61% dos poluentes. Um fato assustador que faz você se perguntar por que as medidas não foram tomadas antes.
A sincronicidade é, para dizer o mínimo, suspeita. Por um lado, um golpe comercial que se pretende atenuar e, por outro, uma medida verde que, no processo, protege o mercado interno da concorrência da sucata com rodas. Um golpe de mestre ou uma coincidência digna de estudo. Assim, sob a égide da descarbonização e da descontaminação, matam-se dois coelhos com uma cajadada só: cuida-se (em teoria) do ar que respiramos e defende-se a indústria nacional. Brilhante, desde que o verdadeiro impulsionador da decisão seja a saúde pública e não apenas uma reação estratégica disfarçada de consciência ecológica.
O resultado final? Uma possível tarifa de 10% que Ebrard vê como uma vitória, uma batalha jurídica pela frente no T-MEC e um novo decreto ambiental que nos faz pensar se, no complexo tabuleiro da geopolítica, até mesmo a fumaça do escapamento de um diesel pode ser usada para mover cavacos.
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