Justiça, aquela criatura esquiva, finalmente alcança um fugitivo
Parece que a justiça mexicana, aquela entidade que às vezes parece mover-se com a agilidade de uma preguiça de ressaca, decidiu agir em conjunto. Ou melhor, ele teve de esperar que a imigração dos EUA lhe fizesse o favor. Sandra Lucía Téllez Nieves, um dos nomes que foram queimados (trocadilhos) na memória coletiva do México, foi presa em Hermosillo, Sonora. A razão? Para que, preste atenção ao eufemismo burocrático, “ele cumpre a condenação proferida contra ele”. Ou seja, para que ele vá para a cadeia. Finalmente.
Esta co-proprietária da Creche ABC estava desfrutando de um exílio não tão dourado nos Estados Unidos, até que as autoridades daquele país, provavelmente entediadas com sua presença, a deportaram. É isso mesmo, o grande sonho americano terminou numa cela de Sonora. Téllez foi condenado por homicídio e ferimento por negligência, crime que decorre não da intenção de matar, mas de uma negligência tão monumental que acaba tendo o mesmo efeito. O cenário deste drama foi o incêndio naquela creche em junho de 2009, uma tragédia que ceifou a vida de 49 crianças e deixou cicatrizes físicas e emocionais em dezenas de outras. Uma ironia cruel: ela agora está presa na mesma cidade onde sua negligência causou tanta dor.
Amparos, recursos e a magia da redução de pena
É aqui que a história fica realmente interessante para os amantes do absurdo judicial. A Sra. Téllez recebeu originalmente 28 anos de prisão em 2016. Uma sentença que, num país onde a impunidade é quase um desporto nacional, parecia um milagre. Mas surpresa! O sistema jurídico mexicano tem mais vazamentos do que uma peneira. Graças a uma combinação de amparos e recursos, aquela sentença de quase três décadas encolheu como um suéter de lã em água quente até completar cinco anos e sete meses. Sim, você leu certo. De 28 anos a pouco mais de cinco anos. Por 49 vidas extintas. Não podemos deixar de nos perguntar: em que universo paralelo tal equação faz sentido? Desde então, e como seria de esperar, a condenada decidiu que nem sequer queria cumprir aquilo e fugiu.
Sua jornada rumo à prisão final tem todos os ingredientes de um melodrama barato. Ela foi presa em Eloy, Arizona, em agosto passado, onde tentou uma atitude magistral: pedir asilo político. Porque, claro, que melhor maneira de mostrar que você é perseguido politicamente do que fugir de uma sentença pela morte de 49 crianças? Felizmente, o juiz que tratou do caso não acreditou na história e o pedido foi negado. A então presidente Claudia Sheinbaum, num acesso de justo zelo, anunciou que o seu governo iria pedir a extradição. Ele prometeu apoiar as famílias, dizendo: “É preciso estar sempre com as vítimas”. Uma frase tão verdadeira quanto óbvia, que soa bem num discurso, mas raramente se materializa em ações concretas e rápidas.
As vítimas, as únicas que não esquecem
Enquanto os políticos prestavam declarações e os advogados procuravam brechas na lei, o coletivo Manos Unidas por Nuestros Niños, que reúne pais e mães das pequenas vítimas, tem sido a força constante que mantém acesa a chama da demanda por justiça. Não é uma metáfora. Eles celebraram a captura em agosto e foram responsáveis por deixar as coisas claras: “Ela é culpada do crime de homicídio culposo e não uma pessoa perseguida politicamente como seus advogados no Arizona pretendem posicioná-la”. Nossa, que estranho, os diretamente afetados têm uma visão menos… criativa dos acontecimentos.
E para quem precisa de um lembrete de por que tudo isso é importante, vamos rever os acontecimentos de 5 de junho de 2009. Um incêndio, que começou num armazém adjacente, propagou-se para a creche ABC, uma instalação patrocinada pelo IMSS. O incêndio matou 49 crianças – 25 meninas e 24 meninos – com idades entre cinco meses e cinco anos. Mais de cem sobreviveram, mas com ferimentos e consequências para o resto da vida. A investigação subsequente revelou o nível de desrespeito pela segurança: as saídas de emergência estavam bloqueadas, não existiam medidas básicas de combate a incêndios e, ainda por cima, o material do telhado era altamente inflamável. Vamos lá, um coquetel perfeito para a tragédia. Não foi um acidente imprevisível; Foi a consequência lógica da negligência criminosa.
Então, aqui estamos. Anos mais tarde, com pena reduzida ao mínimo e um dos responsáveis finalmente atrás das grades, não por vontade própria, mas porque outro país a expulsou. É um encerramento, sim, mas daqueles que deixam um gosto amargo. Uma vitória de Pirro da justiça, que chega tarde, mutilada e sem o ímpeto que seria de esperar. A prisão de Sandra Téllez é um lembrete de que às vezes o sistema funciona, mas funciona embaralhado, com a lentidão de quem não tem pressa em fazer o que é certo.
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