Um final convenientemente trágico em Altamira
Parece que a justiça naval tem uma forma peculiar e definitiva de chegar às suas conclusões. O capitão Abraham Jeremías Pérez Ramírez, um senhor supostamente ligado ao pequeno roubo de apenas 10 milhões de litros de diesel em Tampico, decidiu que esta segunda-feira às 9h30 era o momento perfeito para uma sessão de solidão irreversível nas instalações da Unidade de Proteção Portuária Naval (Unaprop) em Altamira. Que lugar melhor do que o próprio porto, cenário de suas supostas façanhas, para um ato final de tanto drama.
Os laudos, com aquela precisão burocrática que tanto amamos, indicam que seu corpo foi encontrado dentro de seu caminhão, decorado com um impacto de projétil único e artístico. O local, entre o Boulevard De los Ríos e a Rua Boca de California, parecia tão pitoresco que quase poderia ser o cenário de uma novela sobre corrupção. É claro que o Secretário da Marinha (Semar) rapidamente emitiu um comunicado cheio de arrependimento e solidariedade, prometendo todo o apoio necessário à família. Porque nada diz “sentimos muito” como uma pensão e uma bandeira dobrada depois que um capitão se investiga até a morte.
A rede dos irmãos Farías e os subornos que pareciam chiclete
As fontes, aquelas vozes anônimas que sempre sabem mais que o governo, apontam que nosso protagonista não era um amador. Uma testemunha protegida da FGR alegou que o bom capitão, na sua função de chefe da Unaprop, tinha uma taxa fixa: uma modesta comissão de 100 mil pesos por cada navio que atracasse. Imagine, um sistema de assinatura premium para contrabando de combustível. Tudo isto, claro, sob a égide de uma rede criminosa dirigida pela dinastia Farías: o vice-almirante Manuel Roberto (actualmente desfrutando da hospitalidade de El Altiplano) e o seu irmão, o contra-almirante Fernando (que, com um invejável sentido de oportunidade, optou por um desaparecimento estratégico). Ambos, segundo boatos de alto nível, estavam lado a lado com o ex-secretário da Marinha, Rafael Ojeda Durán.
O mais curioso é que, apesar de estar na mira de uma pasta de investigação, o capitão Pérez Ramírez não tinha mandado de prisão contra ele. Uau, que detalhe atencioso por parte das autoridades. Eles lhe deram o privilégio de se mover livremente até… bem, até que ele decidisse não se mover mais. Toda esta comédia negra se passa apenas um dia depois de Omar García Harfuch, secretário de Segurança, ter se gabado da prisão de 14 pessoas ligadas ao huachicol. Entre eles, três empresários, cinco marinheiros da ativa, um aposentado e cinco ex-funcionários da alfândega, todos com nomes tão misteriosos que parecem personagens de um thriller de espionagem: Manuel Roberto “N”, Clímaco “N”, e assim por diante. O “N” deve significar “Narco” ou “Não estou dizendo nada”, presumimos.
Em uma conferência de imprensa que mais parecia um episódio de Aqui eu governo, García Harfuch e o promotor Alejandro Gertz Manero tiraram o pó da história de como tudo começou há dois anos, quando o então secretário da Marinha, Rafael Ojeda Durán, confessou-lhes suas tristezas internas pelas “irregularidades” na instituição. Pediram provas, claro, porque nestes assuntos não se pode confiar apenas na palavra de um almirante. Começou assim uma investigação “muito profunda” com a ajuda da UIF e do SAT, porque no final o fio condutor é sempre seguido de dinheiro.
O atual Secretário da Marinha, Almirante Raymundo Pedro Morales, declarou com uma solenidade de tirar o fôlego: “Não podemos ser indiferentes diante deste tipo de atos”. Bravo! Nada representa “tolerância zero à corrupção” como um capitão que comete suicídio antes de ser preso. “O prestígio da nossa instituição está defendido”, argumentou, como se algumas balas na têmpora fossem o equivalente institucional de uma limpeza da aura. “Essas mudanças de direção são necessárias”, acrescentou. Claro, e que movimento melhor do que um tiro automático.
Para completar a farsa, Morales garantiu que “a lei é para todos” na Marinha. Claro, para todos aqueles que não conseguem escapar através de um ato de auto-eliminação ou de uma fuga elegante. As liminares, porém, foram expedidas por um juiz criminal federal, pois nada dá mais seriedade a um processo do que um cadáver como testemunha principal.
A descoberta: uma lista de coincidências irônicas
O corpo foi encontrado em seu veículo, próximo à guarita da mesma unidade que ele comandava. Ele não tinha mandado de prisão, mas estava sendo investigado. O impacto da bala, presume-se, foi feito com sua arma de carga. Nossa, que coquetel de coincidências. Quase se poderia pensar que alguém queria silenciá-lo para sempre, mas isso seria imprudente. Melhor ficar com a versão oficial: um fim trágico para uma carreira manchada pela suspeita. A Marinha, instituição que há 200 anos zela pela sua honra, certamente encontrará consolo no fato de o problema ter se resolvido sozinho. Porque no mundo da corrupção de alto nível, às vezes a morte é a forma mais eficiente de encerrar uma investigação.
Não é tocante como grandes escândalos sempre terminam com um único culpado morto e uma dúzia de presos com iniciais? É como se o sistema tivesse uma fábrica de bodes expiatórios com produção permanente. Na próxima vez que você ouvir falar de uma operação contra o huachicol, você poderá perguntar: quantos acabarão “cometendo suicídio” antes de testemunhar?
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