Contrabando em Matamoros: crescimento sob controle militar
O contrabando de combustível dos Estados Unidos para o México, prática que se intensificou durante o mandato de seis anos de Andrés Manuel López Obrador, envolve agora três militares de alta patente da Secretaria de Defesa Nacional (Sedena). A Procuradoria-Geral da República (FGR) os acusa de facilitar a entrada ilegal de gasolina na alfândega de Matamoros, Tamaulipas, entre 1º de junho de 2024 e 15 de julho de 2025.
Uma investigação do EL PAÍS, baseada em documentos confidenciais e bases de dados de comércio exterior, revela que a criminalidade se multiplicou naquela zona fronteiriça desde que Sedena assumiu o controle em meados de 2020. A militarização das alfândegas, justificada pelo ex-presidente como medida para garantir honestidade e eficiência, não impediu que o huachicol fiscal – como é conhecido o contrabando de hidrocarbonetos – encontrasse novas formas de operar.
Empresas fantasmas e figuras que explodem
Os registos mostram que em 2019 e 2020, as importações suspeitas de aditivos e óleos lubrificantes não ultrapassaram os 2 milhões de litros. A partir de 2021, com a alfândega em mãos militares, o volume disparou. Naquele ano, a empresa Nafta Aditivos Orgánicos, indicada em documentos militares como ligada ao comércio ilegal, importou 80 milhões de litros de aditivos fornecidos pela americana Hevi Logistics.
Em 2022, a Hevi Logistics embarcou mais 80 milhões de litros. Mas o maior salto ocorreu em 2023, quando as importações atingiram 690 milhões de litros. A maior parte veio da Hevi Logistics e o restante da Ikon Midstream, outra empresa exportadora sob investigação das autoridades dos EUA. Os importadores eram velhos conhecidos, como a Sensive Solutions, que partilha a gestão com empresas ligadas à rede do Ministério da Marinha, ou a JSC Servicios Aduanales, que recebeu milhões de pesos da Ahavat Logistics Solution, identificada como intermediária do Cartel Nova Geração de Jalisco.
Em 2024 e 2025, os números caíram para níveis anteriores a 2021. Porém, a FGR descobriu um novo método: usar solução de cloreto de cálcio como disfarce. A empresa JR Customs Services teria contrabandeado 144 milhões de litros de combustível entre junho de 2024 e julho de 2025 com a cumplicidade dos três militares fugitivos.
Resposta oficial e evidências anteriores
Sedena respondeu ao EL PAÍS que o controle operacional das alfândegas cabe à Agência Nacional Aduaneira do México, embora tenha reiterado sua disposição de colaborar com a FGR. A promotoria descreveu o caso como “um dos maiores esquemas de contrabando detectados no país”.
Documentos internos vazados pelo Guacamaya Leaks indicam que o Governo tinha informações desde janeiro de 2020 sobre o aumento incomum das importações de lubrificantes sem apoio económico. Nas últimas semanas, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos sancionou empresas e indivíduos cúmplices de uma rede fiscal huachicol ligada ao Cartel Jalisco Nueva Generación, com 160 relatos de atividades suspeitas no valor de 7 mil milhões de dólares provenientes do Texas e da Florida.