Da fama à desgraça: a curta e reveladora vida de B-King
Parece que no currículo de um artista do gênero urbano, além de “cantor” e “compositor”, agora deve ser acrescentado o quadro “familiar de traficante de drogas”. A Polícia Colombiana, em uma explosão de eficiência de informação post-mortem, iluminou com holofotes as desconfortáveis raízes familiares de B-King: o falecido artista era parente de Camilo Torres Martínez, conhecido como “Fritanga”. Parece um prato típico, certo? Bom, essa “Fritanga” não se serve de prato, mas foi um ex-chefe do “Clã do Golfo” que cumpriu pena nos Estados Unidos, porque claro, se você vai cumprir pena, que seja na terra das oportunidades.
Confissões no horário nobre: quando a família é mais que um valor
No que foi certamente um golpe de mestre de relações públicas (ou um ato de sinceridade suicida), B-King decidiu revelar seus laços de sangue em uma entrevista para o programa “Eu Sei Tudo”. Ali, com espantosa naturalidade, admitiu ser sobrinho do pseudônimo “Fritanga”. Suas palavras, para enquadrar: “Ele é meu tio, é um amigo que amo muito e sempre esteve ao meu lado. Ele me ajudou em muitas coisas desde que nasci.” Que legal, certo? A figura clássica do tio atual que te leva ao parque e, no processo, abre o seu caminho na vida. Uma imagem terna de apoio familiar incondicional.
Mas o artista não parou por aí na defesa do legado familiar. Numa demonstração de reinterpretação histórica que empalideceria qualquer político, ele comparou-o a Robin Hood. Sim, você leu certo. “Ele é uma pessoa muito caridosa, certamente é o Robin Hood para muitas pessoas na Colômbia”, indicou. Claro, porque nada diz “roubar dos ricos para dar aos pobres” como o tráfico de drogas. Talvez a instituição de caridade a que ele se referia fosse a capacidade especial de redistribuir a cocaína de forma mais equitativa. É uma pena que os arquivos da Floresta de Sherwood não tenham registros das façanhas de “Fritanga”.
A história de uma captura e suas “injustiças” colaterais
B-King também quis se fazer de vítima ao relembrar a captura de seu tio, ocorrida quando ele tinha 18 anos. Segundo sua versão, a operação foi “mal feita” porque “havia menores e eles sacaram armas longas”. Porque, obviamente, quando um chefe de cartel vai ser preso, o protocolo é mandar um palhaço com balões. Então veio o principal lamento de qualquer família que se preze nesses círculos: a extinção do domínio. “Muitas coisas aconteceram conosco que não precisavam acontecer… coisas que não tinham nada a ver com o que envolvia ele ou nós”, reclamou. Claro, porque é sabido que as fortunas acumuladas pelo tráfico de drogas costumam ser fruto de um plano de poupança familiar meticuloso e honesto.
O toque final em sua história de autoaperfeiçoamento foi sublime: “Sempre houve apoio moral, mas eles nos fizeram perder o domínio. A partir daí tudo foi com meu suor e desejo.” Uma verdadeira ode ao empreendedorismo. A clássica história do jovem que, depois de ficar sem bens obtidos de forma duvidosa, se levanta pelos próprios meios. Uma história inspiradora para as massas, sem dúvida.
E então, o silêncio: o assassinato que mudou tudo
Enquanto B-King cantava as virtudes de caridade de seu tio na televisão, sua vida terminou de forma trágica e violenta no México. O presidente Gustavo Petro, sempre oportuno em suas declarações, não perdeu a oportunidade de transformar o crime em denúncia política. Através de um “trinado” (porque os presidentes agora se comunicam como adolescentes), ele deixou escapar: “Eles assassinaram nossa juventude nos Estados Unidos dos mexicanos. Máfia internacional fortalecida pela estúpida política militar e proibicionista, chamada ‘guerra às drogas'”. Uma reflexão profunda que, convenientemente, ignora que a “máfia internacional” se alimenta de chefes como aquele que o próprio B-King elogiou. A ironia é tão densa que você poderia cortá-la com uma faca.
Do outro lado da fronteira, as autoridades do México tentavam decifrar o enigma. Informaram ao EL TIEMPO que estavam analisando uma mensagem encontrada perto do corpo, que permanece sob custódia (o corpo, não a mensagem, esperamos). O mais intrigante é a assinatura da carta: a Família Michoacana. Porque no submundo, deixar um comunicado à imprensa é o novo “protocolo pós-assassinato”. Será que eles exigem uma revisão por pares do método utilizado? A troca de mensagens entre as polícias colombiana e mexicana deve ser tão surreal quanto uma conversa em grupo de vizinhos discutindo sobre um pacote perdido, mas com cadáveres envolvidos.
Em suma, resta-nos a imagem de um artista que brincou com o fogo, elogiou quem alimentou as chamas e acabou por ser consumido por elas. Um final previsível para uma história onde a realidade, mais uma vez, supera a ficção mais grotesca. O único “Robin Hood” nesta história acabou sendo o Grim Reaper, que no final leva a todos igualmente, sem distinção de riqueza ou fama.
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