Porque nada representa mais “transparência” do que um buraco negro orçamentário
Numa reviravolta que deixou todos *absolutamente surpresos*, a Aliança Mexicana contra o Fracking teve a audácia de apontar o que todos vemos, mas poucos de nós mencionamos: o governo federal está brincando de esconde-esconde com os recursos públicos destinados a continuar a fraturar o subsolo nacional. Parece que o slogan é: “se não publicarmos, não existe”. Uma estratégia ousada, sem dúvida, para gerir as finanças de uma nação.
A trama principal deste melodrama burocrático é tão transparente quanto lama de perfuração. Acontece que, segundo esses spoilers da Aliança, “este ano predomina a opacidade no recurso atribuído à empresa pública estatal (Pemex)”. Uau, uau. Quem poderia imaginar: uma empresa estatal de hidrocarbonetos sendo opaca. É como descobrir que a água está molhada ou que o sol está quente. O mais cômico – ou trágico, dependendo do seu senso de humor – é que essa escuridão financeira coincide coincidentemente com o desaparecimento da subsidiária Pemex Exploração e Produção (PEP), naquele belo “acidente de trânsito” legislativo que foi a reforma constitucional de outubro de 2024. Que coincidência.
A arte de fazer desaparecer um orçamento
A situação é tão clara quanto o petróleo bruto não refinado. Até à data, o Projecto Orçamental de Despesas Federais 2026 prima pela ausência de montantes específicos para cada projecto de investimento no sector dos hidrocarbonetos. Em particular, aqueles envolvidos na extracção de gás através da maravilhosa técnica de fracturação hidráulica – ou fracking para amigos – decidiram tirar férias permanentes dos documentos oficiais. Será que esses projetos são tão tímidos que não querem sair em público?
E aí vem o melhor: quando o governo federal publicou o orçamento em setembro de 2025, o EL UNIVERSAL, num ataque de engenhosidade jornalística, teve a ideia de pedir à Petróleos Mexicanos e à Secretaría de Hacienda aquela informação detalhada que se destacava pela sua ausência. A resposta foi um silêncio monumental. Nem a agência nem a petrolífera partilharam informações ou, pelo menos, um argumento criativo sobre o motivo pelo qual omitiram a publicação do referido documento. Talvez eles estivessem ocupados demais contando dinheiro para inventar uma desculpa.
Pemex: a joia da coroa que custa mais do que a saúde e o meio ambiente juntos
Vamos preparar nossas calculadoras para uma aula de aritmética governamental. No PPEF 2026, o recurso total para a Pemex ascende à modesta soma de 517 mil 362,1 milhões de pesos. Uma quantia tão grande que exige respirar fundo antes de dizê-la. Esta figura representa, com uma elegância matemática que beira o poético:
Cerca de 12 vezes o orçamento concedido à Secretaria do Meio Ambiente. Porque, sejamos honestos, o que é mais importante: algumas árvores e animais ou um óleo sagrado?
Quase 8 vezes o orçamento alocado para Saúde. É evidente que os barris de petróleo bruto são mais vitais para a nação do que os hospitais e os medicamentos. Prioridades, senhores.
E, se não bastasse, duas vezes mais do que o atribuído à Secretaria de Energia. Isto é especialmente irónico, considerando que a Pemex faz parte tecnicamente do sector da energia. Uma metáfora perfeita para o cachorro que come seu dono.
Enquanto isso, a Aliança contra o Fracking insiste em romper com o que eles chamam de “a narrativa de considerar o gás como um ‘combustível de transição'”. Propõem, numa explosão de idealismo, que o governo mexicano cumpra as suas promessas de proibir o fracking e avance para uma política energética baseada na eficiência e na redução do consumo. Que ideia radical: cumpra o que promete.
A sua proposta soa como música celestial no meio deste concerto de absurdos: “uma verdadeira transição energética justa e sustentável, respeitadora dos direitos humanos e que responda em tempo útil à crise climática e ambiental que afecta cada vez mais regiões do país”. Lindo, certo? Pena que concorra com o som das máquinas de perfuração e o irresistível canto da sereia das receitas do petróleo.
O toque final: tarefas diretas
Para coroar este espectáculo, a Aliança informa-nos que o Secretário de Energia irá canalizar praticamente todo o seu orçamento através de alocações directas no âmbito do programa de Articulação da Política de Hidrocarbonetos. Caso alguém não esteja familiarizado com o termo, “alocações diretas” é aquela linda modalidade onde se evitam licitações chatas e transparência. É o equivalente burocrático de entregar o dinheiro em envelope lacrado. Eficiente, sem dúvida. Transparente? Bem, isso é outra história.
Em suma, estamos diante de uma obra-prima de gestão opaca: orçamentos que desaparecem, agências que permanecem eloquentemente silenciosas e uma empresa estatal que devora recursos enquanto as áreas de saúde e meio ambiente fazem malabarismos com as migalhas. Tudo isso insistindo em promover uma técnica de extração que oficialmente dizem rejeitar. Porque no grande teatro da política energética mexicana, a coerência é tão ilusória quanto os detalhes orçamentários para o fracking.
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